Utilização de animais para o ensino – Artigo de opinião

Desde o início da década de 90, o desenvolvimento de melhores métodos educacionais levou à abolição do uso de animais em muitas escolas médicas dos EUA. Felizmente, esta evolução tem vindo a consolidar-se, de modo que, atualmente, os animais são utilizados num número pequeno de escolas de medicina americanas, número esse que continua a diminuir. Mais de 70% das escolas de medicina norte-americanas não recorrem a animais de laboratório, incluindo as de maior renome, como Harvard, Yale ou Stanford. No Canadá, nenhuma das 17 escolas de medicina recorre a animais de laboratório, desde 2010. Em Itália, 71% dos estabelecimentos de ensino superior substituiu o uso de animais por métodos alternativos.

Mas, afinal, o que diz a lei? A legislação portuguesa deriva de documentos desenvolvidos ao nível da União Europeia.  Consultando o site da DGAV (Direção Geral de Alimentação e Veterinária), aprendi que a Diretiva n.º 2010/63/UE, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 22 de setembro de 2010, relativa à protecção dos animais utilizados para fins científicos e que revogou a Diretiva n.º 86/609/CEE, do Conselho, de 24 de novembro de 1986, veio estabelecer regras mais pormenorizadas, com vista a melhorar o bem-estar dos animais utilizados em procedimentos científicos. Este decreto de lei dá execução ao princípio dos “3Rs”substituição (replacement), redução (reduction) e refinamento (refinement), pelo qual se regem os cuidados a prestar aos animais e a sua utilização para fins científicos, conferindo preferência à utilização de métodos alternativos. Estipula, também, os valores das coimas e das sanções acessórias a aplicar a qualquer transgressão aos requisitos nele expostos. Efetivamente, o bem-estar dos animais constitui um valor da União Europeia, consagrado no artigo 13.º do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia. Portanto, legalmente, a utilização de animais para fins científicos ou educativos deve ser considerada apenas quando não existir uma alternativa não animal.

Atualmente, estão disponíveis excelentes alternativas, validadas e amplamente implementadas, à utilização de animais no ensino médico. Os simuladores humanos programáveis, bastante realistas e fidedignos, são agora um dos pilares da educação médica na maioria das escolas médicas dos EUA. Estes permitem ilustrar reações humanas a um número ilimitado de fármacos, sendo um método muito superior para o estudo farmacológico. As lições podem ainda ser repetidas conforme necessário e fornecem as vantagens da aprendizagem interativa e individualizada, bem como um ambiente seguro para corrigir e aprender com os erros. Muitas escolas ensinam as respostas aos medicamentos através do envolvimento direto dos alunos durante as cirurgias, em salas de emergência e em unidades de cuidados intensivos, onde podem ser observadas as respostas em tempo real e em pessoas reais.

 

E no ICBAS?

14 de Outubro de 2015 – 8:00 horas da manhã. Laboratório de Farmacologia do ICBAS. A minha turma inicia uma aula prática de Farmacologia I. O objectivo era estudarmos a absorção do ácido salicílico pelo estômago de rato e comparar a absorção da substância em dois meios com pHs diferentes. Para isso, foram sacrificados dois ratinhos de forma a termos um estômago para cada meio de pH diferente e concluirmos que a absorção é maior em meio ácido. O nosso protocolo descrevia minuciosamente os procedimentos correspondentes à fase da anestesia (os ratinhos não sentiriam qualquer dor), ao correto posicionamento dos animais nas pranchas de disseção, ao corte e rebatamento muscular da região hipogástrica e finalmente à laqueação do cárdia e canulação do piloro, apesar de ninguém ter assistido a nada disto. Mera falta de tempo? Ou receio dos desconfortos e despertares de consciência que se poderiam proporcionar? Afinal, o que os olhos não vêem, o coração não sente.

No final da aula, o meu grupo concluiu que os resultados estavam enviesados, devido a uma hemorragia gástrica acidental. Para além disto, a professora informou-nos que, “na vida real”, isto não é nada assim. Há muitos outros factores a ter em conta que afetam potencialmente a absorção de fármacos.

Concluímos, também, que a exaustiva sessão de esclarecimento da semana anterior, acerca da selecção, obtenção, manutenção e utilização de ratos de laboratório, teria então o objetivo de nos preparar para esta experiência.

O uso de ratos de laboratório é de facto justificável aquando de novas descobertas farmacológicas no seio da comunidade científica especializada. Também o será no contexto das aulas de Farmacologia I, para alunos que nem a meio do curso de Medicina vão, para aprendermos de uma forma mais prática e realista (?) o que dezenas de exemplares bibliográficos nos transmitem em meras frases?

Já em Fisiologia II, no 2º ano do curso, estava agendada uma aula em que iríamos sacrificar uma rã, a fim de estudarmos a transmissão nervosa muscular. No entanto, a experiência estava disponível para ser visualizada na sua totalidade em formato de vídeo. Sabendo disto de antemão, o meu ano decidiu recolher um abaixo-assinado para que a aula não se realizasse, com sucesso. Evitaram-se várias mortes de rãs. Qual não foi o meu espanto e profunda desilusão quando soube que, para além do professor não ter desistido da ideia, os meus colegas que estão a fazer a cadeira este ano nada fizeram para dar continuação ao legado de manifestação e mudança. De facto, esta só acontece quando os alunos a exigem!

E os alunos? Querem? Gostam? A maioria não; outros têm uma opinião neutra. Mas há de facto alunos que gostam de utilizar animais em meio laboratorial. Dever-se-á ao wow factor de uma exposição ao vivo e a cores do interior de um animal e da dissecação? Pressão dos colegas ou dos professores? Medo de ficarem prejudicados no exame ou mesmo perante o professor? Falta de alternativas? Vários estudos mostram que, quando lhes são propostas alternativas ao uso de animais, os alunos tendem a preferi-las. De facto, várias análises comparativas levadas a cabo nos EUA mostram que os alunos e professores preferem uma metodologia de educação não-animal. Os diretores de escolas de Medicina e outros profissionais da educação apoiam assumidamente a substituição do uso de animais por métodos alternativos. Para além disso, os resultados dos alunos são equivalentes ou superiores quando são usados ​​métodos não animais.

É difícil ser-se professor. Sei-o, graças aos meus pais; ambos lecionam com afinco e desejo permanente de ensinar sempre mais e, acima de tudo, melhor. É portanto compreensível (e desejável) que os professores do ICBAS procurem incessantemente transmitir o conhecimento aos futuros médicos da forma mais eficaz possível. No entanto, apelo à reflexão dos docentes da minha faculdade, da qual tanto gosto, para que reconsiderem estes métodos e, acima de tudo, permitam que os estudantes sejam ouvidos. O sacríficio de animais só nos desmotiva. Apelo ainda à direção do ICBAS e à reitoria da UP para que sejam feitos investimentos nesta área que permitam a substituição destes métodos por outros igualmente (ou quiçá mais) eficazes.

Por um ICBAS melhor.

Alexandra Guedes