Tudo é conhecimento, tudo está interligado

“O médico que apenas sabe de Medicina, nem sequer Medicina sabe” e o iMed Conference, que decorreu em Lisboa, organizado pelos alunos da NOVA Medical School, nos passados dias de 13 a 16 de outubro de 2016, procura demonstrar exatamente isso.
Neste artigo, Tiago Costa, aluno de 6º ano do MIM, reflete sobre a sua experiência no congresso e sobre a importância de expandirmos os nossos horizontes, enquanto estudantes de Medicina (e não só!)

No passado fim de semana, o destino foi Lisboa, mais precisamente o centro cultural de Belém, onde decorreu mais uma edição do iMed Conference, o congresso anual realizado pelos alunos de Medicina da NOVA Medical School. Foi um evento verdadeiramente inspirador, no qual se reuniram especialistas de diversas áreas, desde a Nanotecnologia até à Psiquiatria.

Todas as brilhantes palestras a que assistíamos ecoavam em inúmeras discussões durante a pausa para café (ou coffee-breaks, para os neologistofílicos). Por vezes, a conversa surgia da contemplativa incredulidade na utilização de agentes víricos no tratamento do cancro; outras vezes, na dimensão assustadora da última epidemia de Ébola. Contudo, de entre todas as mensagens que trouxemos para casa (sim, as take-home messages), impõe-se a constante provocação que vários dos oradores nos dirigiram, palestra após palestra: temos de sair da nossa zona de conforto, não podemos perdermos a imagem de fundo que une todo o desenvolvimento Humano, há que procurar o que de melhor se faz fora dos nossos horizontes e temos de tentar aplicar o que aprendemos de novo em tudo aquilo que fazemos.

Evocando a célebre serendipidade da descoberta da penicilina por Alexander Flemming, Bart Knols demonstrou-nos a potencialidade da inaparente relação entre o cheiro a queijo e o tratamento da malária. O neurocirurgião Bon Verweij contou-nos como, numa viagem de regresso a casa, após mais um dos seus dias intensos de bloco de operatório, ouviu um podcast (eu sei, já sucumbi aos neologismos!) acerca do desenvolvimento da impressão 3D, e como daí surgiram os modelos de crânios que trazia consigo (e que tivemos a oportunidade de “ver” com as nossas próprias mãos), que permitiram já tratar com sucesso patologias de diversas etiologias, desde a traumática até à vascular. Houve ainda tempo para a Dra. Janet Eyre nos falar acerca da (improvável?) relação entre vídeo-jogos e a neuroplasticidade.

Recordo ainda as sábias palavras do laureado professor Michael Bishop, quando nos chamava à atenção para a universalidade do conhecimento Humano. “Tudo é conhecimento, tudo está interligado”. A nossa tarefa passa por perscrutar tudo o que nos rodeia e encontrar essas mesmas ligações. Foi precisamente esse espírito que valeu a honrosa menção ao nosso ilustre professor Corino de Andrade, durante a apresentação de um desafio clínico pela Dra. Lisa Sanders, graças à sua dedicação ao estudo da Polineuropatia Amiloidótica Familiar (vulgo, a “doença dos pezinhos”).

Faço, por isso, votos para que a nossa própria revista Corino nos possa servir de inspiração, ampliando os nossos horizontes e elevando a um outro nível o célebre dito do aforismo 59 de José Letamendí: “O médico que apenas sabe de Medicina, nem sequer Medicina sabe”.


Texto por: Tiago Ribeiro da Costa