Sombras

 

Mariana Valente de Abreu, estudante do 3º ano do MIM partilha connosco mais um texto, intitulado “Sombras”.
Convidamos-te a ler e a refletir um pouco, esperemos que gostes!

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Quando a noite cai e as trevas se adensam, quando sucumbes ao sono, é aí que elas saem do seu esconderijo. Lá, no buraco onde haviam aguardado pacientemente a chegada do crepúsculo, permanece apenas o vazio. Pé ante pé, por entre a penumbra, com cuidado para não perturbar a quietude, as criaturas percorrem as ruas desertas, evitando criteriosamente os pequenos focos de iluminação artificial que tentam, sem sucesso, vencer a escuridão. Lenta e pausadamente, como se tivessem todo o tempo do mundo, rastejam no silêncio imenso da cidade adormecida.

Para onde se dirigem só elas sabem. Esta noite podem estar calmamente a observar-te enquanto dormes, segurando o teu destino nas suas mãos disformes. Se despertasses nesse momento, talvez fosses capaz de distinguir alguns pares de olhos brilhando no escuro. Desvalorizarias o incidente, chamar-lhe-ias sonho ou ilusão e viverias mais um dia. Mas algures, num outro leito, numa outra cidade, um outro alguém encontrar-se-ia a viver a sua última noite, a sua alma consumida e apagada, um invólucro vazio no seu lugar.

Hoje sentiste os seus etéreos dedos na tua face, leves como penas, e o teu coração iniciou um trote e depois um galope fulminante, à medida que o suor formou um rio no vale do teu dorso. Uma profunda escuridão ocupou a tua mente, afastando todos os sonhos e pesadelos para um lugar longínquo e inacessível e deixando apenas o vazio e um imenso terror no seu lugar. Depois, tão subitamente como apareceram, os dedos fantasmagóricos abandonaram a tua pele, levando com eles o medo avassalador que os acompanhou e devolvendo-te a um sono pacífico e ignorante.

Será numa plácida inocência que permanecerás, até chegar o momento em que verás a tua última noite na abismal escuridão dos olhos de uma sombra. Assim, sem aviso, desvanecer-se-à a ténue chama do teu ser, para nunca mais ser reavivada.


Texto por: Mariana Valente de Abreu