Carta ao Menino da Síria

A Guerra Civil na Síria, um conflito que sendo, supostamente, interno, faz parte da realidade de todo o Mundo há mais de 5 anos, continua a afetar, todos os dias, a vida de inocentes e de cada um de nós, trazendo-nos a tão falada “Crise dos Refugiados”. Mas será que sabemos o suficiente sobre este assunto para opinar? Será que devíamos, sequer, opinar? A Corino defende que sim, que é falando sobre os assuntos que se aprende. Mas é, também, lendo sobre os assuntos que obtemos as armas para argumentar com fundamento.
Neste texto, Ricardo Nogueira, aluno do 2º ano de MIM, “arma-nos” um pouco, elucidando-nos um pouco, de um jeito original, acerca do que se passa na Síria.
Convidamos-vos a ler e a pensar um pouco no assunto. Convidamos-vos, também, a visitar este link para mais alguma informação (afinal, informação nunca é de mais!).

syria-2015-photos

Tens 5 anos. És tão jovem e sabes tão pouco do mundo. Da guerra vais sabendo: ouves os adultos a falar de medo, os tiros e as bombas a cair como chuva, e com elas vão caindo os que conheces, os que desconheces e até tu. Já nasceste no meio de tudo isto, e talvez penses que o mundo é assim.

Será isto o inferno temido por esta gente?
Estás sentado numa cadeira da cor dele. Estás confuso, e o pó e o sangue cobrem-te. Em tão tenra idade, apenas me cobria uma manta. Como o mundo é injusto!

Mas o nosso conforto, esse não o conheces. Talvez tenhas ouvido falar dele. Dos que fugiram rumo ao paraíso. Mortos ou vivendo por entre as árvores do Éden, lá estão eles, felizes.

Quero sentar-me  ao teu lado e dar-te um pedaço do meu céu. E um dia roubar-te essa confusão, sentado num café como este, por onde já correram boatos ignorantes de que vinham dos teus lados bombardear e pilhar o paraíso, como se ele apenas tivesse duas léguas de raio.

Quero contar-te aqui parte da tua história:

“Era uma vez, um rei muito muito mau que, quando confrontado com um protesto pacífico, decidiu matar todos os homens que se erguiam contra ele. Os restantes civis ficaram indignados e o rastilho de toda uma revolta contra o rei vigente foi aceso.

O rei e os “Rebeldes” estavam em guerra. Mas os rebeldes, ao invés de se unirem, começaram a fragmentar-se por terem ideias diferentes.

Surgem então quatro frentes, numa guerra que vê o seu fim distante:

Os Xiitas Laicos que representavam o rei, os Sunitas Laicos e alguns Sunitas Islâmicos formaram um grupo chamado “A oposição”, Sunitas Islâmicos radicais, compostos por uma filial da Al-Qaeda na Síria, e os Sunitas Radicais Islâmicos, também conhecidos por ISIS ou Estado Islâmico, que governam metade do reino.

O rei da Rússia, Vladimir Putin, ao ver toda esta situação resolveu apoiar o rei da Síria, Bashar al-Assad, para proteger os negócios que mantinha com ele. O rei dos Estados Unidos, invejando os negócios do rei da Rússia, apoiou ” A Oposição”. E assim nasce a guerra internacional pelo petróleo e pelo gás natural, a par da guerra religiosa e da pelo poder.”

E talvez um dia, velho e conhecedor de tudo, te sentes à lareira com os teus netos ao colo e lhes contes o que viveste. Que crianças como eles morriam de fome, bombardeamentos e balas perdidas. Que a tua cidade, Aleppo, foi um dia histórica e capital, antes de nasceres. Hoje, está sem luz, medicamentos, água e reduzida a pó.

Não te terei dito que o mundo já se esqueceu de ti e que os jornais vão falando de outros assuntos. Que um menino morreu afogado na Turquia, quando ele e a sua familia tentavam chegar à Grécia. A fotografia dele, tal como a tua, correu o mundo. Mas também dele, o mundo já se esqueceu.

De que se lembrará o mundo então? Apenas dele mesmo e do que o mantém entretido.


Texto por: Ricardo Nogueira