Sem título – Ficção

Os ventos de Oeste fustigavam a casa envolvida na bruma nocturna. Não havia luar, apenas a luz dos candeeiros de rua, que alumiava levemente o refúgio do pensador.

A porta escancarada rangia à passagem do vento que fazia corrente de ar dentro do edifício decadente. O velho estava no quarto, a sua escrita iluminada apenas por um pequeno candeeiro. Escrevinhava furiosamente no papel, com mãos cheias de calosidades. Trabalhava num livro novo, filosofava sobre a vida, enquanto fumava o seu cachimbo. O fumo criava o ambiente perfeito para as reflexões absortas do ancião, colocando-o num completo estado de dormência.

Desta vez, escrevia um poema. Tentava encontrar um significado para a vida que em nós habita, esse grande mistério que permanece sem resposta. Mas, afinal, o que seria a vida? Seria apenas um sonho, uma narrativa de encaixe? Ou, pelo contrário, uma realidade finita? Se assim fosse, findaria quando o corpo perece ou prosseguiria na mente do indivíduo?

Sabia que não faltava muito para saber a resposta a todas estas questões que vagueavam errantemente na sua mente, no entanto via-se incapaz de se libertar das perguntas sem resposta que inundavam o seu ser meditativo.

Parou o lápis. Levantou-se e olhou o céu com olhos tristes. Nas estrelas encontrava sempre consolo para os males que o atormentavam. Mas, nesta noite, as estrelas estavam escondidas pelo nevoeiro o que entristeceu ainda mais o poeta.

Voltou a sentar-se e encheu o cachimbo. Os olhos fecharam-se, cansados, e o ancião deixou-se adormecer. Uma máscara de horror ocupou-lhe o rosto anteriormente sereno. Sonhava. Uma criatura com corpo humano e uma cabeça de coiote corria rapidamente pelas ruas, procurando escapar à luz dos candeeiros. Subitamente, os seus olhos inumanos desviaram-se do caminho para fixar um ponto atrás do homem. Virou-se e qual não foi o seu espanto quando avistou a sua casa, como que a sorrir-lhe.

Acordou sobressaltado. A noite reinava ainda sobre a Terra. O poeta dormira certamente pouco tempo, mas encontrava-se mais desperto do que nunca. Começou a escrever rapidamente nos seus papéis, riscando algumas frases e substituindo-as por outras. Não havia muito mais tempo antes de o coiote chegar para o levar. Se conseguisse desvendar o mistério da vida e do seu fim, permitiria à humanidade saber o que a esperava.

Sentia-a a aproximar-se, a uma velocidade estonteante. O coiote corria como o vento. Tinha um destino para alcançar e não seriam tolerados atrasos.

Os dois tinham um forte objetivo e os dois moviam-se velozmente. Afinal, não há uma grande diferença a separar os atos de correr e pensar. São ambos exaustivos e ainda mais competitivos.

Entretanto, a face do pensador apagava-se lentamente, ainda que parecesse finalmente chegar ao cume do monte que subia. A razão da sua melancolia era outra. Começava a crer que talvez chegar a esta verdade fosse prejudicar a espécie humana.

A morte é uma das poucas coisas que são capazes de nos surpreender, pois nada sabemos sobre ela. A surpresa é uma das grandes alegrias que pertencem à vida. Para quê existir pensando na morte, preparando-nos para a sua natureza inevitável, sem aproveitar o viver? Porquê tirar ao ser humano o conforto de não saber? O filósofo teve nesse momento a certeza de que a ignorância superava o conhecimento.

Foi esse o  último pensamento que a sua mente moribunda formulou antes de o coiote uivar e, finalmente, o levar.

Não se sabe o que aconteceu ao poeta, nem o mistério que certamente acabou por desvendar na morte. O seu corpo jaz na terra, inanimado, ao lado de infinitos outros. Da terra se ergueram e à terra voltaram. E o mundo prossegue a sua perpétua rotação, enquanto a morte espera a sua oportunidade.

Mariana Valente de Abreu