PESSOAS COM HISTÓRIA 2 – por ANA MIGUEL

AM2

 

Hoje tive a honra de conhecer o João. Não digo
Senhor João, pois ele reclama logo e diz que não é senhor, que o Senhor está no Céu. Estava a dar migalhas a pombos quando o abordei.
Tem 61 anos e é de Alcobaça. É um nómada. Viveu em vários países como Holanda e Espanha. Mostrou uma enorme indignação com o nosso país e com as pessoas. Diz que nunca se sentiu tão rejeitado como cá em Portugal. Afirma que os estrangeiros lhe dão sempre dinheiro para poder almoçar (ou para ir tomar um “copo”, como foi o caso de um senhor que interrompeu a nossa conversa) comparativamente com os portugueses, que olham com desprezo ou até viram a cara. Disse-me “Sabias que na Holanda o presidente vai de bicicleta para o trabalho? Cá vão de Mercedes e cheios de seguranças atrás deles. Dizem que não querem, mas acabam sempre por instigar o medo nas pessoas. Só cá em Portugal é que se vê disto: pessoas a apontarem o dedo uns aos outros, a sussurrarem aos ouvidos. Isso não existe em mais lado nenhum.”
Falamos um bocado sobre a sua vida. Contou-me da vida de luxo que teve antes: esteve nas Canárias durante algum tempo, quando tinha 19 anos, onde viveu no meio da alta sociedade. Mas apercebeu-se que não queria isso para ele. Foi aí que começou a viajar.
Disse que levou estilos de vida que não se orgulhava: traficou heroína durante muitos anos, ganhava muito dinheiro e tinha uma boa vida, até ao momento em que se apercebeu que estava a estragar não só a sua vida, como também a de muitas famílias. Sentiu esse peso e arrependimento durante muito tempo. Chegou também a estar preso dois meses e dois dias, por palavras que tinha dito.
Pedi-lhe para me dar um conselho tendo em conta toda a sua vivência. Disse de imediato “Se puderes fazer o bem, não faças o mal. Não percebo porque é que as pessoas fazem o mal se às vezes o bem é muito mais fácil”. Depois acrescentou “Na tua idade, tem cuidado. Estás na idade em que tudo o que fizeres agora vai-se refletir no teu futuro. Acima de tudo, tem o teu coração e a cabeça em sintonia. Não importa que tipo de roupa usas, se estás descalça, se tens dinheiro, não interessa, mas mantém sempre os pés firmes.”
No final da conversa perguntei-lhe se tinha algum arrependimento. Disse-me “A droga e o facto de ter nascido em Portugal”. Perguntei-lhe porque estava em Portugal se, afinal de contas, não gostava de cá estar. Ele, na sua humildade, disse que, apesar de tudo, eram as suas raízes. Confidenciou-me que quando o sol voltasse que iria para a Holanda, mas que independentemente de tudo, ia sempre voltar para casa.

 

Fotografia e texto por: Ana Miguel – Nanye

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