O delírio da cura do cancro

As diferentes formas de cancro constituem, atualmente, uma das maiores causas de mortalidade e morbilidade a nível nacional e global. Pela sua relevância, os esforços direcionados para a procura de tratamentos (ou uma milagrosa cura) têm sido também cada vez maiores. Será isto assim tão simples, no entanto? Há quem acredite que não!
Neste artigo, Tiago Costa, aluno de 6º ano do MIM, reflete quanto à crença popular de que “eles” andam a esconder a cura para o cancro e expõe-nos a sua opinião. Convidamos-vos, também, e como sempre, a expor a vossa e, quem sabe, conversar um pouco connosco!


Para fugir ao silêncio naturalmente constrangedor entre dois estranhos (daquele que se forma quando se encontram sozinhos e a menos de 30 cm de distância), o taxista perguntou-me se estava atrasado para o trabalho e, pergunta atrás de pergunta, voltamos nós à conversa sobre o cancro (sim, “o” cancro).

A oncologia é a especialidade médica que se dedica ao estudo, diagnóstico e tratamento das patologias neoplásicas (ou seja, “do” cancro). De uma maneira simples, Siddharta Murkherjee explica-nos no livro “Cancro: o imperador de todos os males” que “onkos” é o termo grego para “massa” ou “carga”, embora o seu sentido mais comum seja o de “fardo”, e por isso classicamente o cancro é visto como um fardo que o corpo carrega. Apesar de toda esta carga física e emocional, este é um tema que me apraz discutir. Aliás, atrevo-me até a dizer que vivemos em tempos fáceis para se “gostar” de falar acerca dele.

Foi durante a década de 90 que comecei a tomar consciência da minha existência, assim como o resto do mundo tomou consciência do imatinib – somos filhos da mesma geração. Ainda assim, fui crescendo num mundo em que a palavra “leucemia” era capaz de lançar o mais aterrador silêncio em qualquer conversa, e tal era o seu onkos que eu nunca cheguei realmente a perceber o seu significado. Foi necessário chegar à faculdade para perceber que esta também é uma forma de cancro, mas foi também nesta altura que percebi que, apesar de ainda ser um ponto final de conversas, hoje há alguma esperança. Tal como na esmagadora maioria dos avanços científicos, é uma esperança contida, tímida, que chega sem se assumir de forma ingente, mas que nos vai tomando quase sem darmos por ela. E chega com o imatinib, o trastuzumab, o ipilimumab, os oncovírus, entre outros.

No decorrer da conversa, o taxista lança-me a inocente provocação: “Sabia que eles andam a esconder a cura para o cancro? Eu sei que ainda é um estudante e que desde cedo vos ensinam que isso é mentira, mas já pensou sobre o assunto ou vai-me dar uma resposta formatada?”. Confesso que me senti desarmado. Não era a primeira vez que era exposto a esta ideia e, em retrospetiva, sinto-me até culpado por nunca me ter preparado devidamente para um segundo “round”. Da primeira vez, não tive grande opção a não ser hastear a bandeira branca, uma vez que o professor tem (quase) sempre razão – sim, também existem médicos a acreditar que “alguém”, de “alguma maneira”, está a esconder a cura para o cancro. Mas tal como diria Jack, o Estripador, vamos por partes.

O argumento mais simples é o de que estão a esconder a cura para o cancro porque os tratamentos atuais são mais lucrativos, comparativamente com uma cura propriamente dita. É relativamente consensual atribuir-se a maior parcela das taxas de mortalidade geral à doença cardíaca e vascular, mas se considerarmos a mortalidade por todos os tipos de cancro, esta acaba até por ser superior: 8,2 milhões de mortes estimadas por cancro em 2012, contra 7,4 milhões de mortes por enfarte (dados disponíveis no site da Organização Mundial de Saúde). Deixem esta informação assentar um pouco – 8,2 milhões de mortes por “cancro” em 2012. Como é possível não se lucrar o suficiente com um tratamento curativo?

Poderia pensar-se que, mesmo lucrando bastante com um tratamento curativo, a indústria farmacêutica esteja interessada em ganhar ainda mais. Mas isso implica que também estejam a pagar a investigadores, membros de governo, classe médica, entre outros, para que mantenham a cura em segredo. Mais: como é possível lucrar-se mais com os tratamentos atuais, que obrigam a despesas permanentes de hospitalização e de acompanhamento destes doentes? Sim, a indústria farmacêutica poderá não estar muito preocupada com as despesas hospitalares dos seus “clientes”, mas admitir essa hipótese implica também admitir que todos os governos terão de ser cúmplices nesse segredo. A quantas pessoas seria necessário pagar para que se mantivessem caladas? Quanto custaria esse encobrimento?

No World Cancer Report de 2008 estima-se que em 2030 existam cerca de 80 milhões de pessoas a viver com cancro. Sim, 80 milhões! A indústria farmacêutica não se pauta por exemplos de integrade e honestidade, não sejamos ingénuos, mas 80 milhões de doentes? E porque estamos nós a curar a tuberculose, mas o cancro não? Porque estaríamos nós a investir no tratamento da diabetes, da doença de Parkinson, da SIDA, mas não no do cancro? E porque continuamos a investir em vacinas, em vez de simplesmente lucrar com o tratamento das complicações de doenças infeciosas? De uma maneira geral, o cancro é uma doença do envelhecimento, atingindo em maior número populações de faixas etárias mais avançadas, que por sua vez correspondem ao grupo de maior consumo de fármacos: como é que a indústria farmacêutica não lucra mais em mantê-los vivos durante mais uns anos, consumindo assim uma maior quantidade de fármacos?

Subjacente a este primeiro argumento, encontramos também a ideia de que toda a investigação em oncologia tem origem em organizações com fins puramente lucrativos. Para além de todas as universidades envolvidas neste tipo de investigação, a própria American Cancer Society é um exemplo perfeito de como este não é um problema que se centra apenas em dinheiro. Nunca foi! Note-se: já lá vão 2 argumentos.

Mesmo aqueles que poderão desconfiar das verdadeiras motivações altruístas de investigadores como Sidney Farber, uma das maiores referências históricas na investigação em quimioterapia, facilmente também compreendem o porquê de ser tão difícil esconder “a cura”. Não é possível que alguém tenha efetivamente descoberto uma cura para o cancro e que se habilite a ser nomeado para um prémio Nobel, ou a ser citado em inúmeros artigos, livros, noticiários, mas que por uma qualquer razão illuminati/big pharma mantenha isso para si em segredo. Vá, sejamos razoáveis.

Mas admitamos essa hipótese (seja lá por que razão for!). Admitamos que há efetivamente alguma razão para esconder essa cura. O simples facto de, um pouco por tudo o Mundo, existir gente a dedicar a sua vida ao estudo do cancro, inviabiliza que alguém por si só consiga conter uma verdade “inconveniente”. Em janeiro deste ano, foi publicado na PLOS one um artigo intitulado On the Viability of Conspiratorial Beliefs, que apresenta um modelo matemático de teorias da conspiração, demonstrando que, tendo em conta o número de pessoas envolvidas na investigação da “cura”, bastariam apenas algumas horas para que o segredo vazasse para o resto do Mundo. Novamente: quanto custaria manter esse segredo?

Há ainda quem acredite que a “cura” está apenas disponível para os mais ricos e poderosos. Claro está, ignorando a quantidade significativa de personalidades famosas e influentes que sucumbiram a esta terrível doença, desde o Steve Jobs até ao antigo presidente Venezuelano Hugo Chávez, ou (incrivelmente!) até mesmo CEOs da Pfizer, como foi o caso de Edmund Pratt. Note-se que a Pfizer é uma companhia farmacêutica que já produziu vários fármacos anti-neoplásicos, como o palbociclib, bosutinib e o axitinib, entre outros.

Mas mergulhemos um pouco mais fundo no conceito de “cura” para “o” cancro. Durante o meu percurso académico, nunca fui exposto à ideia de estarmos ainda a desenvolver uma cura para o cancro porque, na melhor das hipóteses, esta é apenas uma ideia romântica e, em termos mais científicos, simpaticamente estúpida. Em boa verdade, “o” cancro não existe. O cancro não é uma doença, mas sim milhares delas, todas diferentes entre si. Mais do que diferentes entre si, um cancro de pulmão numa pessoa pode ter um comportamento completamente diferente de um cancro de pulmão no vizinho. Acabar com “o” cancro é tão idiota como acabar com “a hemorragia” ou “a tosse”.

Estou ciente de que um cancro não é um sinal nem um sintoma, mas em boa verdade o próprio termo apenas descreve um processo de divisão descontrolada das nossas células, cujo comportamento vai depender largamente dos fatores de risco que estiveram na sua origem, nas mutações concretas responsáveis por essa divisão, na capacidade de o nosso sistema imunitário conter todo esse anarquismo celular, entre muitas outras variáveis. É precisamente por isso que alguns cancros se riem dos nossos tratamentos, enquanto outros sucumbem ao esforço heroico da ciência. Alguns tomam-nos de assalto do dia para a noite, enquanto outros são tão insignificantes que até custa a crer que são verdadeiramente cancro!

Ainda pior do que todas estas teorias da conspiração sobre a cura são os relatos das “curas milagrosas” e a venda de “alimentos milagrosos”, de tudo o que “alcaliniza” o nosso sangue para combater a “acidificação” que provoca o cancro. Podemos dizer que estamos todos de acordo, o cancro é uma treta, mas a solução não está na magia, nem tão pouco na conspiração. Bem sei que sou um entusiasta intratável do poder da ciência. Sei também que estamos muito longe do dia em que finalmente vencemos “o” cancro, a SIDA, o Alzheimer, se é que esse dia alguma vez chegará! Mas a melhor solução que conseguiremos arranjar virá da investigação, do trabalho de todos aqueles que dedicam a sua vida a combater o imperador de todos os males.

Entretanto, todos nós temos a obrigação de nos educarmos, assumir uma postura crítica e reservar um pouco do nosso ceticismo para todas as nossas reflexões. Enquanto seres Humanos, todos somos dotados de capacidades cognitivas excecionais, mas somos também vítimas dos nossos próprios enviesamentos.

Frequentemente, encontram-se pessoas interessadas no tema, que ao mesmo tempo sentem a mágoa de ter um ente querido a sofrer nas garras do monstro, e por isso tornam-se extremamente vulneráveis ao que chamamos demotivated reasoning, isto é, uma espécie de enviesamento de confirmação: entram numa fase de negação, em relação ao facto de (para já) sermos impotentes contra algumas neoplasias, e por isso procuram incessantemente por uma opinião que lhes garanta a cura, ou então que simplesmente esteja em sintonia com essa mesma negação, encontrando evidências de conspiração quando não existem e negando a existência de provas do contrário, mesmo quando estas abundam!

Entramos assim no reino da crença, do apelo à emoção, do cherry-picking. É o nosso dever estarmos informados para que possamos lidar com esta verdadeira postura post-truth, em que os factos concretos de pouco interessam quando se forma uma opinião sobre um qualquer assunto. No cenário político abundam os exemplos recentes de como o sensacionalismo e a ignorância se poderão tornar extremamente perigosos para todos. É a nossa obrigação sermos capazes de contra-argumentar com base em factos objetivos e combater a disseminação de desinformação.

Estou certo que não existe, nem nunca existirá uma verdadeira “cura” para o cancro, mas tal como nos disse o grande Carl Sagan em The Demon Haunted World: Science as a Candle in the Dark, “a cura para um argumento falacioso é um argumento melhor, não a supressão de ideias”.