Jubilação do Professor Quintanilha

O Professor Alexandre Quintanilha é conhecido dos alunos do ICBAS, logo no 1º ano, pelas aulas de Biofísica, que leciona aos cursos de Medicina, Medicina Veterinária, Bioquímica e Bioengenharia. É Professor Catedrático do ICBAS e codiretor do Mestrado Integrado em Bioengenharia, e foi diretor do Instituto de Biologia Molecular e Celular (IBMC); presidente do Instituto Nacional de Engenharia Biomédica (INEB) e diretor do Laboratório Associado IBMC.INEB, aquando da junção de ambos, entre 2000 e 2010, dirigindo depois o Conselho de Gestão e Orientação do I3S (IBMC, INEB e IPATIMUP – Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto). É Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (ordem honorífica portuguesa, concedida por mérito literário, científico e artístico) e recebeu ainda, no Porto, a Medalha Municipal de Mérito Grau Ouro, em 2009.

Nascido em Lourenço Marques, Moçambique (atual Maputo), em 1945, licenciou-se em Física Teórica em Joanesburgo, na África do Sul, e doutorou-se na mesma Universidade em 1972.

Trabalhou depois durante cerca de 20 anos na Universidade da Califórnia, em Berkeley e no Lawrence Berkely National Laboratory nos Estados Unidos, onde foi Professor de Fisiologia e de Biofísica e Diretor do Centro de Estudos Ambientais, tendo desenvolvido investigação nessas áreas.

Em 1991, foi nomeado diretor do Centro de Citologia Experimental e Professor convidado no ICBAS, pelo que veio para o Porto.

Em 2015, Alexandre Quintanilha vai jubilar-se. A Corino não podia deixar que o Professor se fosse embora sem de novo o entrevistar (ver Corino nº 3, fevereiro de 2013 – entrevista como Presidente da Comissão Científica do I ABC), e deixa-te aqui o seu testemunho:

 

AlexandreQuintanilha, foto 6

 O Professor Alexandre Quintanilha

Revista Corino (C): Voltemos umas décadas atrás: por que razão deixou os EUA e veio para o Porto?

Alexandre Quintanilha (AQ): Eu nunca antes tinha vivido em Portugal, tirando um ano, o equivalente ao atual 7º ano, que fiz em Lisboa. Na altura não gostei, era muito frio no inverno! No início da minha estadia nos EUA, em 1974, houve um congresso internacional em Espinho, organizado pelo Professor Carvalho Guerra, no qual eu participei, e onde conheci o Professor Corino de Andrade, que estava envolvido na criação do ICBAS (este surgiu no ano seguinte, em 1975). Em 1977, os Professores Nuno Grande e Corino de Andrade convidaram-me para ser cá Professor, e passei a vir dar algumas aulas, anualmente, apesar de na altura ainda viver e trabalhar nos EUA. Comecei a gostar do Porto, e fui cá bem acolhido, por várias pessoas, como o Dr António Rocha Melo (neurocirurgião do Hospital de Santo António) e os Professores Corino de Andrade e Alberto Amaral (ex-reitor da Universidade do Porto). Nesse período de cerca de 15 anos, havia muito otimismo em Portugal, tratava-se afinal do período após o 25 de abril! Havia muita esperança no futuro do País, o que se sentia no ICBAS, pois esta era uma escola nova.

No entanto, nos EUA, pouco tempo depois (década de 1980), a realidade tornou-se bem diferente: eu vivia na “Área da Baía” (Bay Area) de São Francisco, que se tornou uma das áreas mais afetadas pelo HIV. Tornou-se um sítio difícil, na altura era praticamente uma sentença de morte! Todas as conversas começavam e acabavam com este assunto, em qualquer lugar. Houve ainda dois eventos em 1989 que catalisaram a minha vinda para Portugal, ligados precisamente a esta questão: o ter sabido, na mesma semana, que dois jovens investigadores (ela vindo da Austrália e ele de Boston) do meu departamento, absolutamente brilhantes e escolhidos a dedo, tinham contraído o HIV e, no mesmo ano, a morte do irmão do Richard [Richard Zimler, escritor e professor universitário, de origem norte-americana e naturalizado português. Companheiro do Professor Alexandre Quintanilha desde 1978, são casados desde 2010.], também pela SIDA. Continuar na Área da Baía tornou-se quase impossível, precisávamos de um escape, e o Porto era uma boa opção, pois era uma cidade que já conhecíamos e onde tínhamos já alguns amigos e colegas de trabalho.

Os primeiros 2 anos cá foram muito difíceis, a adaptação foi complicada. Questionava-me quase todos os meses se tínhamos tomado a decisão mais acertada, até porque a pressão dos colegas dos EUA para voltar era grande… Nessa altura (1991), ir de Berkeley para o Porto era uma mudança abissal, eram mundos completamente diferentes. Esta cidade parecia um País do 3º mundo, não estava habituado a muitas das formas de viver das pessoas, até tinha medo de ir a um quarto-de-banho público, tal era a falta de higiene! E há coisas que podem parecer estranhas, mas que me faziam e continuam a fazer impressão, como a falta de diversidade cultural e étnica da cidade – toda a gente era (e continua a ser) branca! Entretanto, esses 2 anos passaram, o Richard foi aprendendo a falar português, conseguimos adaptarmo-nos, os tempos mudaram e o Porto tornou-se uma cidade mais cosmopolita e aberta para o Mundo. Atualmente, não estou nada arrependido de ter vindo para cá, considero que foi uma boa decisão, e deu-me muito gozo e orgulho todo o trabalho que fiz, como o ter ajudado à criação do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária e do Mestrado Integrado em Bioengenharia e o ter estado à frente do IBMC.INEB e de todo o processo de lançamento e de formação do I3S.

C: Como se deu a sua passagem do mundo da Física para o da Biologia? E ao longo dos anos, quais as ligações que vê entre ambos, e quais as que perspetiva para o futuro? Considera que a Biofísica continua a ser relevante no currículo de Estudantes de Medicina e Medicina Veterinária, que à partida terão profissões menos ligadas à investigação do que os alunos de Bioengenharia?

AQ: Pode considerar-se que toda a vida estudei os eletrões, desde o início, com a minha tese de doutoramento em Física, sobre a supercondutividade, até ao estudo do oxigénio e dos mecanismos de oxidação e redução que sempre me fascinaram. Tenho um interesse muito grande por ambas as áreas, pelo que foi bom ter podido conciliá-las. De notar que comecei por ter uma formação sólida em Física, e só depois passei para o domínio da Biologia. O contrário muito dificilmente teria sido possível! No que toca à relevância da Biofísica no currículo dos vários cursos oferecidos pelo ICBAS, acho que continua a ser importante, pois muitos conceitos simples e fundamentais da Física servem de base para a compreensão de muitas aplicações e inovações noutros domínios do saber destes cursos, como a Bioquímica, Radiologia, Anatomia, Fisiologia, Imunologia, Farmacologia, Imagiologia, etc Há ainda que considerar e valorizar a diversidade dos currículos das diferentes escolas. Acho que os cursos de Medicina do ICBAS e da FMUP são e devem continuar a ser diferentes, senão não faz sentido haver dois cursos na mesma Universidade! Por outro lado, a transdisciplinaridade da Biofísica do ICBAS é fundamental para os outros cursos da UP em que a Escola partilha responsabilidades. Sou totalmente a favor da mobilidade dos Estudantes, mas esta não deve ser conseguida sacrificando a diversidade.

C: Como conciliou as atividades de docência e investigação, ao longo da sua carreira? O que prefere? E que momentos e projetos destaca, em ambas?

AQ: Desde que cheguei ao Porto, participei em vários projetos sobre o stress oxidativo (mecanismos de envelhecimento e degeneração), em colaboração com vários bioquímicos do ICBAS e da Faculdade de Farmácia, neste último caso, aplicado a diversas situações, como a gravidez, exercício físico, psoríase, doenças renais, entre outras. O oxigénio é fundamental para todos os seres vivos, é essencial à vida, mas é tóxico, há um preço a pagar!

Cooriento teses e dou aulas só quase a alunos do 1º ano, porque considero que é essencial a transmissão do que é diferete na Universidade, pelos Professores mais velhos aos alunos mais novos. O que eu mais gosto é de pôr as pessoas a desconfiarem do que parece ser óbvio – é fundamental voltar a ter dúvidas, imaginar novas respostas e reforçar a nossa curiosidade! A cadeira de Ciência e Sociedade, que ajudei a criar, ilustra bem este meu desígnio.

A nível cívico, destaco a minha participação no debate público na altura do referendo pela despenalização da interrupção voluntária da gravidez. Fui entrevistado pela Judite de Sousa, onde expressei a minha opinião e os meus argumentos, a favor do “sim”. Houve reações bastante diferentes por partes das pessoas, fui até abordado na rua! Mas tratando-se deste tema, é natural. Fui também o Presidente da Comissão que propôs a descriminalização do uso de drogas para uso pessoal. Na altura foi controverso, mas penso que se tratou de uma excelente inicativa – teve bons resultados, de tal modo que agora muitos outros Países estão a estudar o caso português e a ponderar fazer o mesmo! A divulgação do conhecimento e das suas implicações pessoais e sociais continua a ser uma área prioritária para mim. Como presidente da Comissão de Ética para a Investigação Clínica e como membro do Conselho Nacional para a Procriação Medicamente Assistida a minha intervenção social continua a ser muito grande.

C: Após a jubilação, o que se segue? Continuará ligado à Universidade, pela docência e/ou investigação?

AQ: Ainda não sei, está tudo em aberto! A reforma não me assusta. Posso ainda tornar a mudar de País, como fui fazendo ao longo da minha vida, de 20 em 20 anos, apesar de gostarmos muito de estar cá em Portugal e no Porto. Provavelmente irei passar umas temporadas anuais com o Richard nos desertos americanos, é uma zona de que gostamos muito. O meu interesse pela arquitetura e pela sociologia não esmoreceram e, quem sabe, começar uma carreira diferente….

 

área da baia, são francisco, foto 7

Área da Baía, São Francisco

 

A Corino agradece a disponibilidade do Professor Alexandre Quintanilha, por nos ter concedido esta entrevista, num tom informal, amigável e acolhedor.

Madalena Cabral Ferreira