João Paulo Seara Cardoso e as Marionetas do Porto

Quando entramos para a faculdade, há sempre um Professor (ou vários) que nos diz que devemos procurar formas de abrir a nossa mente. Afinal, “quem só sabe Medicina, nem Medicina sabe”. O teatro de marionetas é uma arte invulgar, mas é sem dúvida uma excelente forma de entretenimento e de aprendizagem.

João Paulo Seara Cardoso, entusiasta das artes do espetáculo e do teatro de marionetas, dedicou a sua vida ao Teatro de Marionetas do Porto, que fundou e dirigiu, e tinha um sonho: o Museu de Marionetas do Porto.

joão paulo seara cardosoJoão Paulo Seara Cardoso

Conversamos com Isabel Barros, diretora artística da companhia, que nos respondeu a algumas perguntas sobre as Marionetas do Porto e João Paulo Seara Cardoso:

Corino  (C): Podia começar por falar-me da equipa que constitui o Teatro de Marionetas do Porto?

Isabel Barros (IB): O Teatro de Marionetas do Porto foi fundado pelo João Paulo Seara Cardoso, que fez um longo trabalho, sempre a este nível; e tem um espaço, uma sede, que é o teatro de Belmonte.
A equipa que funciona é relativamente pequena. Em função depois das criações, vão sendo convidadas mais pessoas, mais artistas, que se associam às outras questões, como a música e os figurinos. Esses são, então, artistas convidados para cada criação, mas o núcleo acaba por ser sempre relativamente pequeno. Por exemplo, atualmente somos 7, com esta estrutura com dois espaços: uma companhia (um teatro) e um museu.

C: Suponho que toda a gente trabalhe tanto num espaço como noutro. Que tipo de gestão é que há nesse sentido?
IB: A direção é comum e a produção é comum. Depois há o trabalho dos atores, que está mais focado, no teatro; e o trabalho no museu, e também de acolhimento e coordenação. Todos acabamos por ser polivalentes,no meio desta duplicidade.

expo 1º andar

Exposição no 1º andar no Museu

C: E a ideia surgiu como, em relação ao museu e ao Teatro? Isto porque não é muito comum, existir uma companhia de teatro de marionetas e um museu associado.

IB: O teatro de marionetas foi criado pelo João Paulo, e a ideia de ter um museu foi do mesmo, era um sonho que ele tinha de poder partilhar, no fundo, o trabalho que fazia, num espaço que pudesse estar aberto ao público. Não conseguiu concretizá-lo em vida, mas nós conseguimos, há dois anos, continuar as obras que já tinham sido iniciadas e abrir, finalmente, este espaço na Rua das Flores.

C: E em termos de espetáculos, há espetáculos que sejam contínuos, já há 20 anos, ou vão inovando?
IB: Sim, há uma série de espetáculos que fazem parte do reportório da companhia, e que fazem circulação,  tanto a nível nacional, como no estrangeiro. Depois, todos os anos  fazem-se novas criações. Então, há sempre uma renovação em termos de trabalhos, porque há os espetáculos anteriores, alguns que já não se fazem, outros que já se fazem e que se mantêm disponíveis, e depois as novas criações.
Normalmente a companhia, como já é bastante conhecida fora, e já participou em muitos festivais em vários continentes, todos os anos tem pelo menos uma ou duas saídas, para festivais internacionais. Depois, também participamos em festivais internacionais, mas em Portugal, como os Festivais Internacionais de Marionetas do Porto e de Lisboa, entre outros. Em termos de circulação, talvez sejamos uma das companhias com um trabalho mais intenso.

expo 2º andarExposição no 2º andar do Museu

C: Sente que haja espetáculos preferidos do publico, essencialmente do mais jovem, e que acabem por tornar-se permanentes devido a isso?
IB: Eu acho que há sempre espetáculos, na história da companhia, que podem marcar de alguma forma, mas neste caso, nós temos vários. Alguns por essa razão, por percebermos que eram mais carismáticos, já foram repostos mais que uma vez. Temos, por exemplo, o “Óscar”, em termos infantis, do espetáculo para crianças, e o “Cinderela”. Estes dois já foram apresentados várias vezes. Já tiveram vários elencos e são bastante apresentados. Depois, dos que são para adultos, há o “Wonderland”, por exemplo, que é um espetáculo muito bonito, que já foi feito e que é muito querido do público. Havia dois, mas que já não se fazem, um deles é o “Miséria”, que era um solo do João Paulo, que está aqui no museu em exposição, no primeiro andar, e o “Cabaret”.

 

TEATRO MARIONETAS DO PORTO FOTO DE LUCILIA MONTEIRO

Marionetas construídas pela companhia

C: E relativamente ao João Paulo Seara Cardoso? Entendo que ele é o pai da companhia.
IB: O João Paulo foi uma pessoa muito importante, verdadeiramente um mestre, ao nível das marionetas em Portugal, que acabou por influenciar imenso a estética de muitas pessoas que estavam a começar e a trabalhar nesta área. Foi muito importante para várias gerações de atores e de encenadores e como pessoa que pensava o teatro, e o teatro das marionetas e dos objetos, de uma forma muito peculiar e muito inovadora. Foi um grande impulsionador,  uma pessoa que fez um trabalho muito intenso e que introduziu muitas coisas novas ao nível da criação.

C: Como se dá a construção de um teatro de marionetas, desde a construção das marionetas, à historia e à encenação?
IB: Cada projeto é um projeto, ou seja, pode começar por um texto que é escrito ou por uma ideia que é desenvolvida. Depois, em função disso, no fundo, do conceito de onde se parte, vão sendo desenhadas as coisas: é necessário construir marionetas, e nós temos uma oficina, contratam-se então pessoas para a construção de marionetas e é preciso também cenografia e música (que normalmente é original). Portanto, depois há essas componentes todas que se associam ao espetáculo, mas ele pode, de facto, partir de um texto ou de um não-texto, digamos, e depois, como é feito muito trabalho de improvisação e de experimentação com os atores, acaba por ser essa matéria que se vai desenvolvendo.

C: Têm algum espetáculo para breve que aconselhe?
IB: Vai estrear agora dia 20 de Fevereiro o “Fausto”, que é um espetáculo de homenagem a um encenador que trabalha há 40 anos no Porto e que também queria homenagear o João Paulo, e está a fazer este trabalho connosco. Depois vamos ter, no Rivoli, o espetáculo e workshop “Pelos Cabelos”, que é para crianças, e estamos a fazê-lo com a comunidade aqui do centro histórico, que é um grupo com pessoas com mais de 50 anos e até quase aos 90 e que é um projeto muito peculiar chamado “Quem sou eu”.

C: Podia, só para terminar, falar-me um pouco das exposições do museu?
IB: Nós fazemos duas exposições por ano, e fazemos dois andares muito dedicados à obra do João Paulo, com marionetas de todos os espetáculos anteriores e objetos de cena, e no rés-do-chão, na galeria, fazemos normalmente convite a artistas exteriores ao teatro, ou que já tenham colaborado connosco. A exposição atual é uma exposição da Ilda Teresa Castro.

Maria Ana Alzamora