Insustentável Leveza da Escolha

Nesta pequena história encontrarão um universo de dúvidas e escolhas muito real e muito relevante para alguns de nós. Estas questões podem passar despercebidas ao olhar do observador comum, mas é urgente dar voz a estes pensamentos e questionar o verdadeiro sentido daquilo que sempre tomamos como garantido. Esta é uma pequena história sobre género que nos faz filosofar sobre a verdadeira palete cromática do mesmo.

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A maré está a subir e começa a ser má ideia estar onde estou, mas aqui estou só eu e aqui essa pessoa pode ser quem eu quiser, aqui essa pessoa pode não ser ninguém, até. Aqui ninguém me encontra.

Ou pelo menos isto era o que eu pensava.

Não preciso de olhar para saber quem está a passar pela pequena entrada da gruta. Não há mais quem saiba como o fazer, só nós sabemos da falha na rocha que nos dá acesso à caverna. A caverna mais isolada, na praia mais isolada, numa terra, por si só, muito isolada.

“A tua mãe ligou-me. Eu disse que estavas comigo e que te levava a casa mais tarde. Supus que aqui estivesses.”

“Supuseste bem, parece.”

“Ela está preocupada.”

“Hmm…”

“Que aconteceu?”

“O mesmo de sempre, não?”

“Não, todas as vezes são diferentes. E tu sabes disso.”

“Bem… acaba sempre da mesma forma.”

Ficámos em silêncio durante uns dez minutos, só ouvindo o som das ondas contra as muitas rochas da praia. Algumas entravam na gruta, mas a maior parte não.

“Alguma vez sentes que gostavas de não ser ninguém?”

Sei que o agitei com a minha pergunta. Não sou pessoa de iniciar diálogos. Não sei se é isso que o faz parar para pensar – como se o facto de eu tomar a iniciativa conferisse um tom mais sério ao tema – ou se tal se deve ao teor da questão.

“Não ser ninguém?”

“Sim. Quero dizer, toda a gente espera que toda a gente seja alguém. Escolhe o que queres fazer da vida, escolhe onde queres viver, escolhe de quem gostas, onde pertences, de que é que gostas, de que é que não gostas… Escolhe, escolhe, escolhe. E se eu não quiser escolher? E se eu não quiser escolher? E se eu não conseguir?”

“E o quê? O que é que não consegues escolher?”

“Vês? Até isso é uma escolha. Escolher o que mais me incomoda, o que mais preciso de partilhar neste momento. Escolher aquilo que não consigo escolher.”

Sei que estou a fugir à questão e ele sabe disso, também. Resolvo falar:

“Sabes, a minha mãe ameaçou que me expulsava de casa. Lembras-te de quando lhe disse que era homossexual? Ela não conseguiu compreender como é que eu podia escolher este estilo de vida para mim. Uma vida mais difícil, em que me sujeito ao preconceito, uma vida em que não sou aceite pela sociedade. Ela não percebe que a aceitação começa em casa, que o receio dela do preconceito da sociedade se tornaria irrelevante se ela própria não o tivesse.”

“E ela quer expulsar-te de casa por causa disso?”

“Não. É porque não consigo escolher. Porque tenho três problemas quando podia ter só um.”

“E agora já queres dizer-me o que é que não consegues escolher?”

Género. Não consigo perceber se sou rapaz, se sou rapariga… nem se sou os dois ou não sou nenhum. E tenho de escolher, não é? Porque se eu decidir que sim, que sou cisgénero, só tenho um problema: sou gay. Mas se eu decidir que afinal não, que afinal sou transgénero, então esse passa a ser o meu problema. Porque passo a ser heterossexual, e é um problema na mesma, mas são menos dois do que os que eu tenho neste momento. Porque neste momento eu não sou nada e por isso sou tudo. Neste momento sou potencialmente transgénero, e neste momento sou potencialmente homossexual e, neste momento, certamente que não consigo escolher. E assim são três problemas.

Mas porquê? Porquê que eu tenho de escolher e porque é que não conseguir é um problema? O género não passa de uma construção social, não é? Nasces e decidem vestir-te cor-de-rosa porque és menina ou vestir-te de azul porque és menino. E cresces a brincar com bonecas, a usar vestidos e o cabelo comprido, não trepas às árvores porque isso é feio, não jogas à bola porque é coisa de menino, falas com as tuas amigas sobre rapazes… Ou então cresces a jogar à bola, a trepar às árvores, estás sempre a cortar o cabelo e não podes gostar de bonecas. E falas com os teus amigos sobre raparigas.

E se não fazes uma destas coisas, és diferente e não és normal. Mas mesmo assim tens de ser alguma coisa. És uma maria-rapaz e és mariquinhas. E és gay, e lésbica e bi. E és cisgénero se te conformas com os padrões que foram associados ao tipo de corpo com que nasceste. E és transgénero se quiseres ser o oposto. Mas devias aceitar o corpo que te foi dado, claro está.

E se mudas quem és, tem muito cuidado de quem gostas! Não juntes dois problemas num! Se és um homem heterossexual, não mudes. Não dês numa de mulher gay. Não tinhas nenhum problema, porquê escolher ter dois? Mais vale passares de homem homossexual a mulher heterossexual. Para além disso, quem é que estás a tentar enganar? Uma maria-rapaz claramente que gosta de raparigas e claramente que quer ser homem e continuar a gostar de raparigas. E um mariquinhas é gay, não há dúvida disso. E continua a ser gay quando decide usar vestidos e dar numa de mulher.

Mas nada disto é verdade, pois não? E as pessoas deviam sabê-lo. E eu também não tenho de contentar-me com as ideias de género da sociedade, nem tenho de me identificar com nenhum dos padrões. E pode haver dias em que me sinto uma rapariga, ou dias em que me sinto um rapaz, ou dias em que não me sinto como nenhum.

E eu posso escolher e dizer que sou um ou outro, ou que não sou nenhum e sou agénero, ou que sou ambos e sou bigénero, ou que sou outra coisa qualquer. Ou posso não escolher. E não é uma escolha.

Short story por Maria Ana Alzamora

Ilustração por Magda Pacheco