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Túnel em Goriza, Itália

“Ahh home. Let me go home Home is wherever I’m with you”

Home, Edward Sharpe And The Magnetic Zeros

Há alguns dias, enquanto esperava melancolicamente que o avião levantasse voo, após ter estado a visitar a minha irmã, de quem vivo diariamente afastado por cerca de dois mil quilómetros, ela em Londres e eu no Porto, caiu em mim a noção de como nós, portugueses, temos sido recorrentemente um povo de lares fragmentados. Não me entendam mal, não pretendo assumir que somos os únicos martirizados pelas separações entre entes queridos ou que, apesar da assinatura nacional debaixo destas palavras, nostalgia e saudade sejam sentimentos única e incontornavelmente lusitanos. Toda esta reflexão surge de algo tão cru, mas tão sincero, como a tristeza que todos os dias sinto por viver separado fisicamente da minha família inteira, que no meu caso é uma só pessoa: a minha irmã. Se somos privilegiados enquanto portugueses por pertencermos ao chamado grupo de países desenvolvidos, onde com mais ou menos meios materiais, possuímos casas próprias e objectos pessoais sem os quais não nos imaginamos a sobreviver à odisseia da rotina, dinheiro e desenvolvimento não trazem mais completude àquilo a que podemos chamar de lar. Lar, “home sweet home”, não é o espaço físico, mas sim o espaço afectivo, o lugar feliz onde podemos ter muito pouco em termos materiais, porém tudo em sentimentos e realização, ou onde, pelo contrário, podemos viver numa cornucópia de abundância material e, todavia, sentir o vazio de uma sala de pânico. Nos anos sessenta (para não recuar mais na nossa História fértil em exemplos), Portugal era apelidado de “o país das viúvas dos vivos”, devido à massiva emigração de homens no seguimento da guerra colonial e das melhores oportunidades de trabalho numa Europa em reconstrução no pós-guerra. Hoje, não temos guerra armada e a Europa é, apesar das manchas do terrorismo, o baluarte mundial da paz. Todos os dias deveríamos reconhecer a sorte que temos em ter nascido europeus, onde temos a possibilidade de eleger democraticamente governos e de sair à rua para mostrar e lutar em função do nosso descontentamento com a ordem das coisas. Não obstante estas condições, Portugal e outros países do sul da Europa, continuam a aumentar a sua diáspora. É bom e saudável, quando ocorre por livre vontade das pessoas, é mau quando fragmenta lares: quando estas duas condições ocorrem em simultâneo é apenas ingrato. A minha irmã partiu para o Reino Unido por não ter encontrado um trabalho que valorizasse o esforço dos quatro anos da sua licenciatura, um trabalho que a recompensasse intelectualmente e em qualidade de vida. Como ela, há milhares de jovens na mesma situação – o que faz de nós, Portugueses, já não unicamente o país das viúvas dos vivos, mas dos órfãos dos vivos, dos que permanecem apesar dos que partem. Claro que não somos egoístas ao ponto de não ficar contentes pelas conquistas e vitórias lá fora dos que nos são queridos, e apesar das redes sociais de comunicação colmatarem diariamente a falta dessas pessoas, o nosso lar não deixa de estar fragmentado, reunindo-se por alguns dias quem sabe em menos ou mais tempo que de meio em meio ano, tornando-se os momentos mais esperados e felizes de quem vive separado…

A pensar em tudo isto, já o avião tinha acabado de aterrar, e ao ligar-me novamente à internet para avisar a minha irmã que lá tinha ficado e os amigos que cá me esperavam de que tudo correra bem na viagem, uma notícia da BBC no meu feed de notícias atingiu-me no revés de tudo isto: uma multidão de refugiados em busca de asilo na Europa estavam a ser obrigados, desde Agosto do ano passado, a viver (se assim lhe podemos chamar) num limbo, e com limbo a notícia referia-se a um túnel de uma auto-estrada na cidade italiana de Goriza, na fronteira com a Eslovénia, em condições tão saudáveis como  as que um túnel rodoviário pode oferecer enquanto lar. E então pensei em como a minha irmã e nenhum português partiu para fugir a uma guerra ou a uma perseguição, ninguém foi separado dos seus entes queridos em países estranhos e cuja língua não compreendem, ninguém partiu pelo motivo de apenas procurar um local com paz, onde possa sair à rua sem o risco de ser morto e não poder mais em algum dia ver a sua família. Ninguém parte nos dias de hoje da “ocidental praia lusitana” em busca de algo a que finalmente chamar lar na sua vida, para acabar a viver num túnel, sem nada e sem ninguém a recebê-los decentemente. Eu não sei o que é ser refugiado, sei sim que a situação em que vivo com a minha irmã é desoladora e, no entanto, não se compara minimamente com a das pessoas que sem mais nada entram num pequeno barco no mar mediterrâneo e acabam a nadar pelas suas vidas, muitas vezes sem sucesso… E por isso, as pessoas que, no pico da sua “sabedoria”, tem mil e uma teorias sobre a razão pela qual os refugiados não são bem-vindos à Europa, peguem nas coisas e troquem uma semana do vosso lar (fragmentado ou não) pelas maravilhas do túnel em Goriza, pode ser que regressem enriquecidos em empatia.

Autor: Diogo Moura