Fiquei com a mania de que sou poeta

 

 

parole poesie-2


Jamais o procurarei e porquê?
Olhos não o vêem, mas o buscam
Harmonias da sua ausência
Nostalgias que nos assustam

Concreto, o certo momento
E ilusório, o efêmero pensamento
Num exército de um passado
Agora na luta do desacompanhado

E o título? Nunca o vi, mas acho que é a primeira letra de cada verso

Fénix

Existem aqueles momentos, esses que de momento momentâneo têm muito pouco.
Não são sujos, nem puros, são momentos, instantes que se lembraram de parar para conviver com outros instantes,
Fartos da paragem do parado ponto, na iminente paragem do instante desencontro.
Porque uma vida instantânea e só, é somente o instante de viver na roda do instantaneamente, na ausência do instantemente.

E quem somos nós para julgar quem só quer convívio?
Se fosse um instante, tão efêmero como uma gota de água a passear sob o sol tórrido de verão, tão louco como uma papoula a florir na primavera emoção.
Certamente, que quereria desfrutar, da fruta desta e daquela ocasião, do flagrante sem hipocrisia e libertar a tristeza da pendente solidão.

Mas o instante, tão sedento dessa procura, vê ansioso o seu parceiro de longe chegar.
No deslumbrante tesouro, as rugas da ganância e da gula, viram as regras, das sinas sem cura, desta fatídica ditadura.
E o velho instante ficou paranóico na loucura da espera demorada, um falecimento tão duro deixou o seu lugar para o instante da calada.

Sociedade

Hoje estava a passear e vi:
Um pouco do tudo e um muito do nada
Nesta floresta abandonada a que chamamos casa
Cheia de manias e vaidades, tiques e formalidades, calúnias e falsidades que corrompem:
Tudo o que devíamos tocar e não tocamos
Tudo o que devíamos ver e não vemos
Tudo o que devíamos cheirar e não cheiramos
Tudo o que devíamos provar e não provamos
Tudo o que devíamos ouvir e não ouvimos
E tudo o que devíamos ser e não, não somos

Onde está o exato?
As árvores e as plantas que de um sorriso trazem tanto espírito,
Os animais e os bichos que de sopro trazem o horizonte,
As lagoas e regatos, os rios e riachos, que de um rugido trazem o conforto
E o vento e chuva, o fresco e brando, que de desabafo trazem a esperança

E onde está a esperança?
De uma lufada pura de um mar que nos dá o que respirar nessa sua pujança,
De uma inquietude inocente no cheiro de uma flor na primavera semente,
De um agastado cair de uma folha poente no primeiro sabor a outono,
De um abandono, manso e irrequieto, da paz, no alvoroço do trovão d’inverno
E, de um latibulo, mistral som fulo, tumulto sem pulo, numa estação de piedade, nesta novela d’ironia que chamamos de: ?

Devaneio sarcástico

Nunca vi um sorriso puro,
Daqueles que nada escondem,
Vejo um dilúvio tão duro,
Que da vela os homens morrem.

Será que já viste o sol brilhar?
Aquilo que vejo é a ilusão
Que plantaram no meu olhar
Para proteger o meu coração.

Como uma nuvem permanente
Eu vejo um pouco do nada.
Uma névoa intermitente,
Que em mim se jaz parada.

E a bruma se fez misteriosa
Numa obscuridade absoluta,
De aparência tão duvidosa
Na liberdade dita impoluta.

Aesir dos poetas

Foi na sanção ecléctica da inquisição poética que te conheci, Iðunn.

Preenchido de timidez por se tratar de uma deusa, amedrontado fiquei ao ver te cintilante.
Parecia que o talento me havia sido roubado por teus olhos, enfeitiçado por tuas tranças, adormecido por teus sorrisos, acorrentado por teu charme.
Como um rio que perde o caminho para o mar, como uma estrela que se esquece de brilhar, como uma flor que não se deixa perfumar.

Mas para minha perplexidade, roubaste uma fruta desse pomar e fizeste me ascender ao clã sagrado. Deste me a inspiração e a coragem para ousar estar a teu lado.

E com a tua nobre subtileza, deste me o papel e a caneta, a cidade e o campo, os rios e o encanto, os animais ferozes e os poderes da natureza, as paixões ofegantes e os elixires da tristeza, as margens ricas e os bons vinhos, os licores puros e os beijos do caminho e as alucinações e forças do divino.
E como se não bastasse tanta riqueza, deste me o maior dos oceanos para poder navegar por entre as odisseias e lavar as emoções das muitas nossas epopeias.


Poemas por: Bruno Matos Soares