Estágio no Oceanário

Ante o menino de 4 anos que fui, os tanques dos Oceanário apareceram como a versão tamanho universo do copinho onde as crianças colocam o peixe-dourado. O mundo expandiu de uma forma fantástica e deu unidade a todo o meu imaginário de peixinhos de plástico, coleções de conchas e postais de vida aquática. Desde a abertura da EXPO ’98 que os meus pais me levavam todos os anos a visitar o Oceanário. Alguns amigos deles trabalhavam lá e aproveitava-se a ocasião para pôr a conversa em dia, enquanto se deambulava pelos corredores ladeados de grandes acrílicos.

Quando soube que por ir de Erasmus no terceiro ano, o último de CMA, teria de ficar mais um ano, comecei logo a ver alternativas de modo a aproveitar da melhor forma o primeiro semestre, praticamente livre, que ia ter pela frente. Após tratar de alguma burocracia, fui aceite, com bastante antecedência, num estágio como aquarista, onde iria desempenhar funções diretamente relacionadas com os tanques, tal como a limpeza destes ou a alimentação dos animais. Escusado será dizer que fiquei extremamente entusiasmado, uma vez que estava prestes a concretizar um sonho que me acompanhava desde criança.

Começar algo totalmente novo raramente é fácil. Por exemplo, inicialmente não me consegui adaptar bem ao horário de trabalho, que começava às 7h30 e acabava às 16h30. Umas das coisas que mais ouvia quando explicava o meu horário a alguém, era o quão fixe seria sair relativamente cedo e poder ainda aproveitar o resto da tarde. Porém, na prática tudo aquilo que queria fazer quando chegava a casa era mesmo dormir até ao dia seguinte, tal era o cansaço. A parte menos boa de um estágio ter assim uma duração curta é que quando se realmente começa a dar melhor com as pessoas, a sentir-se mais integrado e adaptado a acordar às 6h começa a custar menos, o estágio acaba e é tempo de ir embora.

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Figura 1: Peixe-palhaço, Galeria do Índico

Para além de ser um trabalho bastante exigente e sem tempo para grandes paragens, cair do céu num meio já bem definido, onde não se conhece as rotinas e aquilo que realmente se deve fazer, consegue ser um pouco assustador. Sempre que passava para uma área diferente acabava por sofrer uma gigantesca overdose de informação nova. A quantidade de tarefas que tive de aprender, desde as diversas alimentações para diferentes tanques, a ter de saber como mexer nos vários sistemas de suporte de vida, responsáveis por manter as condições em parâmetros ótimos para as espécies que neles habitam, foi absolutamente gigantesca.

Na entrevista que me fizeram antes de iniciar o estágio, disseram-me explicitamente que não ia ser só andar a alimentar os peixes ou as lontras e interagir com os animais, que ia haver de facto uma grande parte do tempo em que ia desempenhar tarefas um pouco mais sujas, mas que também fazem parte e têm de ser feitas. Pode não parecer a coisa mais interessante do mundo eu explicar, de uma forma entusiástica, como é que se limpava o habitat do pinguins com uma máquina de pressão ou fazer uma lista dos infindáveis banhos que apanhei enquanto esfregava as algas das paredes dos tanques. Aliás, passei a maior parte do tempo com a roupa e os pés molhados porque manter-me seco era realmente complexo. Mas no fim do dia, o balanço era sempre muito positivo, porque acabava tudo por ser bastante incrível e novo.

Ter acabado de passar seis meses como estudante Erasmus em Roma e de passar as férias de verão “a fazer nenhum” também não facilitou o começo. Estava a iniciar um trabalho cujas rotinas implicavam grande velocidade e destreza para fazer tudo a tempo. Por vezes, sentia-me quase como se estivesse em câmara lenta quando comparado com o resto dos funcionários. Porém, notei uma grande diferença na minha evolução, em termos de à vontade a desempenhar algumas tarefas, conseguindo mesmo reduzir mais de metade o tempo gasto relativamente ao meu desempenho inicial de certas tarefas. Isto obrigou-me imenso a mexer-me, a ganhar um ritmo de trabalho que nunca tive, até porque este foi o meu primeiro trabalho a sério, a ganhar mais sentido prático e a assumir a responsabilidade das minhas ações que poderiam resultar em autênticas catástrofes caso cometesse algum erro, por muito pequeno que fosse. Senti também que ao longo do tempo ia ganhando uma maior independência, já não andava propriamente inseguro e sempre atrás de alguém para perguntar e ter validação sobre o que estava a fazer.

Trabalhar faz-nos evoluir e avançar como seres humanos, tornamo-nos mais hábeis e capazes de realizar novas tarefas, algumas que se calhar até nos pareciam bastante impossíveis no passado. Esticamos os nossos limites e alargamos os nossos horizontes e, no final, saímos uma pessoa diferente, trazendo um pouco mais connosco. Se me perguntarem se valeu a pena eu vou dizer que sim, sem dúvida alguma. Apesar de todo o cansaço e grande esforço envolvido, foi uma experiência fantástica e recomendo vivamente que não se acanhem, persigam os vossos sonhos e aproveitem todas as oportunidades que vos surgirem.

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Figura 2: Anémonas e peixes tropicais, Galeria do Índico

Texto e fotografias: Teófilo Morim