Entrevista – “Ninguém consegue ser médico se não tiver na sua mente que tem de ser um investigador”

Médica, professora e investigadora, Mariana Monteiro é um dos nomes mais sonantes no ICBAS e na comunidade científica nacional. Tendo recentemente assumido o cargo de coordenadora científica da UMIB (Unidade Multidisciplinar de Investigação Biomédica), a professora concedeu-nos uma entrevista onde discute os seus projetos de investigação na área da endocrinologia e o novo desafio que tem pela frente.

Corino – Como surgiu o seu interesse acerca de temas como a obesidade e regulação do apetite?

M.M. – O meu interesse não se centra, unicamente, na obesidade e regulação do apetite. Trata-se de um tema um bocadinho mais alargado que é a regulação da homeostasia energética e isso inclui a homeostasia da glicose e a diabetes que estão estreitamente ligadas à obesidade. Eu dedico-me ao estudo destas áreas já desde há alguns anos e o interesse surgiu quando estava a fazer o internato da especialidade de endocrinologia porque constatei que havia um grande número de doentes obesos para os quais havia poucas opções terapêuticas. Além disso, curiosamente, os doentes obesos eram aqueles que tinham uma maior dificuldade em realizar o metabolismo da glicose e tinham maior risco para desenvolver diabetes. Foi assim que tudo começou.

C- Um dos seus projetos de investigação tem como objetivo desenvolver uma vacina anti-grelina (hormona da fome). De que forma é que pensa que a existência dessa vacina melhoraria o tratamento da obesidade?

M.M. – De uma maneira muito alargada, posso dizer que o grupo de endocrinologia clínica experimental, que é o grupo de investigação da UMIB que eu coordeno, se dedica a avaliar as diferentes abordagens terapêuticas para a obesidade e a diabetes. Em especial uma área muito específica que tem a designação, desde há alguns anos, de diabesidade.

A diabesidade é a diabetes associada à obesidade e os eixos moleculares que associam e tratam as duas. A abordagem das hormonas gastrointestinais parece estar na base de um grande compromisso quer pela sua disfunção que leva à obesidade e à diabetes, quer pelo seu potencial de uso terapêutico. Portanto, nós temos investigado várias frentes: uma delas é a possibilidade de se bloquear a única hormona que se conhece como estimuladora do apetite – a grelina. E existem diferentes abhungryordagens possíveis.

A abordagem imunológica, através de uma vacina, é confortável para o doente se for aplicada num contexto em que a grelina esteja aumentada, mas é apenas uma abordagem que tem de ser utilizada em conjunto com várias. E isto porquê? Porque as pessoas, geralmente, não se lembram que o apetite é uma função vital, qualquer animal que deixou de comer, morre, correto? Como tal, todas as funções vitais estão altamente reguladas e são muito redundantes. É perfeitamente natural que quando há bloqueio de um determinado mediador, existam dezenas de outros que vão tentar compensar a falta desse mediador de maneira a que não se perca a homeostasia. E, portanto, qualquer abordagem isolada é muito pouco eficaz. Desde modo, tem de existir uma abordagem que faz parte de um conjunto de outras abordagens para que seja eficaz. E, no caso da grelina, há um fenómeno que é uma hormona que vai aumentar quando há um balanço energético negativo.

Assim, quando há um balanço energético negativo, ou seja, quando as pessoas fazem dietas ou exercício para emagrecer, a grelina aumenta. Isso faz com que as pessoas comecem a comer mais e voltem a recuperar o peso perdido – daí estar na base do fenómeno ioiô. Então quando é que é útil bloquear esse aumento de grelina? Quando as pessoas estão a tentar ativamente perder peso. Não é algo que faça perder peso por si só, porque as pessoas com excesso de peso também têm a grelina baixa. Trata-se de um método a ser utilizado conjuntamente com outras medidas do estilo de vida, de maneira a tentar prevenir a recuperação ponderal, exatamente o fenómeno de ioiô. Não estamos a pensar em casos extremos de obesidade para os quais sabemos que a única terapêutica eficaz é a cirurgia bariátrica.

12355350_1045274582170984_1853949251_nA cirurgia bariátrica é outro campo de investigação ativa do nosso grupo, quer em doses experimentais quer para descobrir quais os mecanismos moleculares inerentes à cirurgia. Qual é o nosso objetivo último? É, eventualmente, conseguir reproduzir o cocktail hormonal que a cirurgia consegue causar sem ter sido desenhada com esse fim. Foi desenhada com um objetivo mecânico, mas depois descobriu-se que tinha influência na componente hormonal. A nossa tarefa agora é tentar descobrir qual é esse componente hormonal, que está por trás do sucesso da cirurgia, e tentar reproduzi-lo farmacologicamente.

C – Outra área da sua investigação está direcionada para as relações entre a obesidade e o cancro. De que forma é que estes estão relacionados e o que espera descobrir com a sua pesquisa nesta área?

A obesidade está associada ao risco de desenvolver múltiplas patologias. Classicamente, a associação faz-se entre as doenças cardiovasculares e a diabetes. A descoberta da associação da obesidade com o cancro é relativamente recente e tem o sido um grande avanço porque, sem mencionar a cessação tabágica tabaco, há poucas outras intervenções que possam resultar numa prevenção eficaz do cancro.

Para prevenir o risco de neoplasia não basta apenas modificar a quantidade de gordura, mas também a sua localização. O nosso objetivo é conhecer os mecanismos que levam a que a obesidade se associe ao cancro para conhecer o método de melhorar prognóstico do cancro associado à obesidade, corrigindo as alterações que estão por trás desse aumento de risco.

C- Há dois anos assumiu o cargo de coordenadora científica da UMIB. O que espera alcançar com este novo desafio?

O que eu espero ou o que a escola espera? (risos)

Em primeiro lugar, a UMIB, para quem não sabe, foi criada pelo professor Nuno Grande para agregar os grupos de investigação que existiam no ICBAS e por isso é que se chama unidade multidisciplinar de investigação biomédica, porque se dedica a várias áreas de investigação biomédica. Atualmente tem grupos de investigação em nove áreas distintas, quer na área da investigação básica, clínica e nas chamadas zonas de fronteira que estão intimamente relacionadas e que tentam encontrar, na investigação básica, resposta a perguntas clínicas e levá-la de volta para a prática clínica e melhorar o bem-estar dos doentes. É esse o princípio básico da investigação translacional que fazemos por excelência.

Como é que eu cheguei à direção da UMIB? Porque não há muita gente que se dedique simultaneamente à área clínica e à área básica e que consiga fazer a ponte entre os investigadores básicos que estão no laboratório e os investigadores clínicos que estão unicamente na proximidade do doente, que nem sempre falam a mesma linguagem, o que é compreensível. Eu acho que o grande desafio que a direção do ICBAS me colocou quando me nomeou para este posto, foi tentar maximizar a colaboração entre os diferentes grupos e, especialmente, a colaboração entre os grupos clínicos e básicos, porque o potencial de isto resultar em investigação com mais resultados que possam ser transportados de volta para a clínica, é maior. Às vezes é necessário um catalisador que sirva de facilitador para que estas interações ocorram. Essa tem sido, essencialmente, a minha tarefa, tentar juntar as pessoas mais vezes à volta da mesa e dar a conhecer cá dentro o que se faz. Durante o ano passado fizemos seminários mensais de divulgação científica, os seminários da UMIB, e depois terminámos numa cimeira, o Summit da UMIB em que fizemos uma reunião internacional para partilhar não só o nosso know how mas também as nossas parcerias nacionais e internacionais.

C- Que conselhos daria a um jovem estudante com interesse em enveredar pela área da investigação?

Um estudante de medicina? Bem, eu diria que ninguém consegue ser médico se não tiver na sua mente que tem de ser um investigador. Não só investigador da doença do seu doente, mas também um investigador no sentido de ser capaz de identificar os problemas para os quais ainda não existem resposta e estar disponível para colaborar com as instituições académicas como uma fonte de progresso na medicina. Portanto, a primeira etapa para um estudante de medicina é a própria aculturação para a necessidade de aquisição constante de conhecimentos, não só daqueles que já estão adquiridos e que não são assim tão adquiridos porque mudam a cada 25 anos.

Precisa de estar aberto, na prática, no dia-a-dia, à necessidade de ter um papel muito ativo para contribuir para o conhecimento na área da medicina. Claro, se tiver um gosto particular, que se empenhe desde cedo e não tem de esperar pelo último ano para fazer investigação, isso pode ocorrer ao longo da sua formação médica, e em paralelo, e existem vários casos de exemplos de sucesso em que isso aconteceu e é, muitas vezes, a maneira mais simples – entrar onde as coisas já estão a acontecer e ser inicialmente um observador passivo para depois receber pequenas tarefa, e, quando menos reparar, é um investigador independente.

 

 

Entrevista realizada por Rita Lopes e Maria Ana Alzamora.