Dos doentes no Hospital: Cartas a Estudantes de Medicina

Gostava de partilhar, em jeito de prelúdio, um pensamento que muitas vezes me ocorre quando observo as dezenas de pessoas que passam na rua, na faculdade ou no Hospital [Hospital Santo António, do Centro Hospitalar  do Porto]: embora sejam rostos estranhos, têm histórias, pensamentos, necessidades a reivindicar e conselhos para dar. Também os doentes que vemos e entrevistamos são pessoas com histórias complexas de perdas e desilusões, frequentemente difíceis de transmitir, com os quais contactamos num contexto específico e dos quais conhecemos uma (ínfima) parte dos medos e pensamentos. Mas há sempre algo mais a dizer…

 

cartas

“Cartas a Estudantes de Medicina” é um projeto que nasceu pela mão da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM) com o objetivo de passar para o papel os pensamentos, as histórias, as necessidades e os conselhos dos doentes. Um pequeno grupo de alunos tem levado a cabo esta tarefa no nosso Hospital, a qual, embora difícil nos primeiros tempos (sim, alguns doentes achavam que os íamos denunciar à enfermeira-chefe…), tem-se mostrado cada vez  mais fluente e recompensadora. No fundo, trata-se de, humildemente, de fornecer liberdade de expressão e “tempo de antena”. O resultado que se obtém desta experiência é variável, com comentários positivos (“Até aos dias de hoje não tenho nada de negativo a apontar.”), e negativos (“Do tempo que passei no hospital o pior foi sempre as Urgências, que eram apertadas e cheias de gente doente. Andava-se para trás e para a frente, parecia que ninguém queria saber de nós, não gostei.”), queixas sobre o barulho (“Há muito barulho nas urgências.”) e conselhos profundos (“… a única coisa que peço é que tratem sempre os doentes com seriedade independentemente da sua idade… Pode ser a diferença entre a vida e a morte.”), medos (“As noites eram difíceis porque havia muitas sombras estranhas na parede”) e perceções (“Havia muito barulho, o teto era baixo e as paredes escuras.”). Entre algumas recusas e desabafos acerca da persistência dos Estudantes do ICBAS (“Compreendo que os Estudantes tenham de colher histórias, embora me canse muito!”), estabelece-se um diálogo invisível e acede-se a frases que, por falta de tempo (“…parecem-me trabalharem de forma acelerada.”), ficaram por dizer.

E, claro está, não há muito que possamos mudar, para já. Mas podemos aprender… E com pequenos passos crescer humanamente!

Se quiseres participar nesta iniciativa, basta contactares o Departamento de Direitos Humanos e Paz da ANEM, pelo email direitoshumanos@anem.pt.

Raquel Faria