Caos ou ordem? – Um conto

universo

 

            O dia vinte e nove de outubro de dois mil e quinze foi um dia como outro qualquer. Amon-Rá conduziu a sua carroça solar de nascente para poente à velocidade costumeira. A lua continuou a esforçar-se por alcançar o seu amor perdido de milénios e falhou mais uma vez. O sol precedeu-a e achou por bem trazer com ele as nuvens. Digamos apenas que isso não agradou à lua e que nenhuma nuvem arriscou nessa noite aproximar-se dela no firmamento. Mas estava eu a dizer que o dia vinte e nove de outubro de dois mil e quinze tinha sido relativamente ordinário. E foi, de facto, um dia rotineiro para a maquinaria celeste. Para o mundo dos vivos? Não propriamente.

            No coração da savana, um menino de doze anos tornou-se um homem. Numa escola secundária americana, uma estudante do décimo ano foi baleada no mesmo corredor que percorria diariamente. No seio do conflito sírio, um pai comprou a um traficante três viagens para a terra prometida – só de ida.

            À margem de tudo isto, o Universo permanecia numa monotonia perpétua de movimentos ritmicamente repetidos ao longo de eras. A palavra “mudança” não lhe era desconhecida, muito pelo contrário. Um número incontável de milénios antes, o Universo fora palco da mais sublime dança de todas. Choques e fusões repetidas geraram ordem a partir do mais profundo caos. Contudo, como tudo o resto, até a mudança fora remetida ao esquecimento, mas engane-se aquele que pensar que se evaporara como uma fina gota de suor à flor da pele. Invisível ao comum ser vivo e aos seus deuses, a entropia crescia subtil e sorrateiramente, preparando-se para reclamar para si o caos e o vazio e eclipsar, de uma vez por todas, a sua velha e enfraquecida rival, a ordem.

 

Mariana Valente de Abreu