+BIO Entrevista Professor Claudio Sunkel

Curiosos com a criação do I3S, tão pertinente para a área de Bioengenharia, o +BIO foi saber mais, entrevistando o Professor Claudio Sunkel, vice-diretor do I3S, bem como diretor do IBMC (onde coordena o grupo de Genética Molecular), membro do EMBL Council e Professor Catedrático no ICBAS. 

NEB/Corino – O que o levou a seguir o rumo da Biologia Molecular? 

Claudio Sunkel- Inicialmente eu achava que queria fazer Medicina, como qualquer miúdo de 15 anos com interesse por seres vivos… Só que na altura a minha família mudou-se do Chile para a Inglaterra e descobri que nas Universidades Inglesas existia uma área chamada Biologia, com muita gente interessada! 

Eu gostava muito de investigação. Tinha imensa vontade de conhecer, e uma forte ligação ao mundo animal sem interesse por nenhuma área específica, e foi por essa altura que a genética me chamou a atenção. No primeiro ano, primeiro semestre, fui falar com o professor para conseguir uma vaga no seu laboratório e assim comecei! Duas tardes por semana e nunca mais parei… 

A minha licenciatura foi muito gratificante, fui o melhor aluno do ano e fui um dos melhores da Universidade nesse ano. Graças a isso tive uma bolsa para fazer Doutoramento, nem me pediram para fazer o mestrado e acabei o Doutoramento muito cedo, tinha 25 anos. No fim centrei-me na área da genética e dentro desta no desenvolvimento animal. É engraçado que por esta altura uma certa pergunta começou a ganhar destaque na minha cabeça: “O desenvolvimento animal envolve a multiplicação das células: Como é que a minha mão sabe que tem de crescer até aqui e não mais?”, essa pergunta foi a minha guia desde início… 

Assim sendo, quando acabei o Doutoramento procurei abordar as duas áreas e fiz um Pós-Doutoramento que envolvesse Biologia Molecular e Biologia da Divisão Celular pois percebi que a Biologia Molecular estava a crescer e tinha futuro. Penso que foi uma boa escolha, participei no desenvolvimento da tecnologia na Biologia Molecular e algumas descobertas que nós fizemos passaram a ser amplamente utilizadas! Vim para Portugal com um novo método que, após Portugal ter aderido em 86 à União Europeia e havendo fundos para fazer formações, teve uma enorme adesão, inclusive por professores universitários! 

NEB/Corino – De que forma é que vê esta área a colaborar com a de engenharia?

CS- A ligação da Biologia à Engenharia tem-se desenvolvido ao longo do tempo. Antes, tentava-se que o material se integrasse no corpo humano sem perceção por parte deste. Agora, os materiais comportam-se de uma forma muito mais integrada funcionando em conjunto com o organismo! Tal coisa é apenas possível graças aos avanços da Biologia. 

NEB/Corino – O grupo de investigação do professor, no IBMC, está envolvido no estudo dos mecanismos moleculares necessários a manutenção do genoma aquando a divisão celular. Pode esclarecer um pouco melhor o projeto? 

CS- Neste momento temos 3 linhas de investigação: A primeira é praticamente toda ela bioquímica: quais as proteínas envolvidas, o que fazem, como interagem, etc.;
 Outra linha de investigação segue a premissa “Vamos estudar os mecanismos de divisão celular não do ponto de vista bioquímico, mas sim num contexto celular de um tecido”. Para tal escolhemos as células epiteliais, pois estas servem para definir órgãos mas crescem ao mesmo tempo, isto é, à medida que esta camada celular cresce as células têm de se dividir e de se manter agregadas, logo não pode haver uma quebra de integridade nem polaridade! Mas como é que o epitélio cresce? Como é que as células se dividem e se voltam a integrar logo e a fechar? É curioso que uma parte significativa dos tumores são células epiteliais e estas quando perdem a polaridade começam a crescer umas em cima das outras e a invadir-se, que é uma característica dos tumores. 

O terceiro ramo é muito direcionado para o cancro. Estamos a tentar fazer modelos animais de cancro usando como base a alteração na instabilidade genómica (induzindo-a e vendo se esta gera um tumor) tentando ver quais as características do tumor e quais as alterações na célula que tornaram possível tais características. Assim, tentamos identificar novos componentes ou novos mecanismos de sinalização que ficam desregulados quando a célula perde o controlo e que podem possivelmente ser controlados através de substâncias bloqueando as vias de sinalização e restabelecendo a polaridade. A ideia é partir do molecular e chegar até ao tumor no organismo, utilizando neste caso como modelo a Drosophila, a mosca da fruta. 

NEB/Corino – Como surgiu a necessidade de criar o I3S? Quais os seus objetivos? 

CS- O i3S foi criado por um desafio que começou há algum tempo atrás, a primeira assinatura de consórcio que fizemos foi em 2003. Neste país surgiram os laboratórios associados, criados pelo Ministério da Ciência e a FCT em 2000, o que gerou a possibilidade de criar instituições com alguma dimensão, que até então não existiam em Portugal. Um dos laboratórios que foi criado no Norte levou à junção do IBMC com o INEB. O IPATIMUP foi criado na mesma altura ma como laboratório Associado independente. Não fazia sentido existirem tantos institutos no Norte, sendo o país de dimensão relativamente pequena. Chegou-se assim a um consenso de que havia um instituto do cancro – o IPATIMUP – mas que depois o INEB e o IBMC foram crescendo de forma complementar, começando a partilhar equipamentos de grande dimensão entre outras. Em 2007, com 7 anos de convivência entre os institutos, ponderou-se então a junção dos mesmos. 

Mas questionamo-nos, qual seria a lógica? O IBMC é um dos três institutos do país que faz investigação aprofundada a nível da Biologia fundamental, sendo essencialmente um instituto que se foca nesta área. Assim, a ideia seria ter instituto como pilar fundamental, sendo depois criado outro pilar relacionado com o cancro, e outro com a Bioengenharia. Ao mesmo tempo começou a perceber-se que a Bioengenharia transitou de campos relacionados com materiais para áreas da Biologia regenerativa, sendo necessárias competências da Biologia Fundamental, tendo sido uma evolução muito rápida. Em 2008 ponderou-se assim a junção dos institutos, sendo assinado no mesmo ano um acordo. Fez-se assim uma candidatura para fundos europeus, com o objetivo de criar uma instituição maior que englobasse as restantes. A candidatura teve sucesso, sendo que logo após começou a pensar-se em arquitetura, grupos científicos e projetos a desenvolver. Criaram-se assim três linhas de investigação: linha do cancro, linha das doenças degenerativas e linha da resposta ao hospedeiro (“Host response”), que engloba tudo o que é medicina regenerativa mas também respostas de inflamação/imunidade do hospedeiro. Neste momento, as linhas de investigação ocupam espaços diferentes, mas dentro das linhas existem investigadores dos três institutos. Decidiu-se ainda que as instalações do IPATIMUP vão dedicar-se essencialmente a áreas clínicas, incorporando doentes e ensaios clínicos. 

NEB/Corino – O professor faz parte do conselho (chair of EMBL council) do EMBL (European Molecular Biology Laboratory). Em que consiste esta organização? 

CS- O EMBL é um laboratório europeu financiado por mais de 20 paises sobretudo Europeus que têm como objetivo não só o progresso de tecnologias relacionadas com a Biologia Molecular e que possam ser utilizadas por todos os estados membros, mas também o desenvolvimento de tecnologia bioinformática. Para tal nasceu o European Bioinformatic Institute que é parte do EMBL e está sediado na Inglaterra. Este é um laboratório com muitos ramos e áreas de estudo diversas. 

Heidelberg, na Alemanha, é o centro que em conjunto com Genoble (em França) se dedica ao estudo da Biologia estrutural. Inglaterra estuda a componente da bioinformática e Espanha vai ter uma área de imagiologia de órgãos e tecidos. Neste momento está a desenvolver-se uma tecnologia que vai permitir pegar num cérebro de um ratinho e tratá-lo de forma a que seja possível fazer um mapa com todas as ligações celulares que ocorrem dentro do cérebro, isto é, como é que as células nervosas estão ramificadas e quais as suas ligações. Algo que nunca se conseguiu fazer para biliões de ligações! É um laboratório totalmente multidisciplinar, um dos 10 mais importantes do mundo, com 21 países envolvidos, no qual fui presidente do Coucil. Infelizmente acaba este mês, e é com algumas saudades que deixo este posto. 

NEB/Corino – Alguma mensagem para os jovens que pretendem enveredar pela área de investigação?

CS- Não desistam! As condições atuais em Portugal não apareceram de um dia para o outro… Há dez anos atrás havia 3000 alunos com bolsas e agora estamos a trabalhar para ter cerca de 1500 por ano! Portugal pode não ter o mesmo avanço tecnológico que outros países europeus mas tem trabalhado para nivelar essa diferença. 

As pessoas dizem: não tenho bolsa então não faço! Se necessário façam doutoramento lá fora, procurem pessoas com curiosidade e motivação, tudo é possível! 

A vida de um investigador não é fácil: Não pode ser o dinheiro a mover- nos mas sim o gosto pelo trabalho. Noutros países os investigadores têm horários definidos tal como qualquer trabalhador público. Contudo em Portugal os horários baseiam-se na motivação do cientista para trabalhar e não se faz investigação das 9h às 17h. Na Alemanha, chega-se ao trabalho tem-se tudo organizado e há muita gente para ajudar, aqui tem de se fazer tudo e portanto tem de se pensar de outra forma… 

É engraçado que apesar das dificuldades sentidas pelos estudantes não os vejo a desistirem, vejo-os a sairem mas nunca a dizer que não vão prosseguir! 

Um estudante doutorado não é um custo, é um investimento!

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