+BIO Entrevista Alexandre Quintanilha – parte 2

Fundindo os números com a biologia o Professor Alexandre Quintanilha é uma referência para os alunos de diversos cursos da Universidade do Porto. O professor apresenta um percurso académico surpreendente (como poderão ler abaixo) sendo neste momento deputado na Assembleia da República.

No âmbito da parceria +BIO, a primeira parte da entrevista será publicada na página do NEB, uma associação de estudantes criada por e para estudantes de Bioengenharia que, entre muitos outros afazeres, se propõe a criar e divulgar entrevistas e artigos de relevo para a sua área de estudos. Não percam a oportunidade de visitar a página!

 2ª parte

NEB/CORINO – Horizon 2020 é o maior programa de investigação e inovação que a União Europeia já criou. Neste, a Ética é vista como uma parte integrante do trabalho de investigação. Assim são postos problemas, por exemplo, no uso de células embrionárias estaminais humanas, na experimentação em primatas não humanos e no envolvimento de crianças, pacientes e outros grupos vulneráveis em projetos de investigação. Acredita que estes problemas devem ser debatidos juntos da comunidade? Se sim, estará o “cidadão comum” suficientemente informado para tomar uma decisão consciente acerca destes temas? Como podemos melhorar/atingir esta cooperação?

Alexandre Quintanilha – São duas perguntas: a primeira é se a sociedade deve ter o poder de decidir se algo é feito ou não, e eu acho que sim porque numa democracia esta deve ter alguma coisa a dizer… É claro que, ao dizer isto, sei que se vai obter uma quantidade muito grande de opiniões, nós não somos todos iguais, felizmente, mas penso que é essencial. A segunda pergunta é até que ponto as pessoas estão suficientemente informadas para fazer isso, e eu acho que estão muito longe de o estarem… A ignorância tecnológica é enorme e é enorme em muitos sentidos. Dando como exemplo a questão da estatística: vocês volta e meia vêem nos jornais grandes parangonas como “A carne vermelha aumenta a probabilidade de ter cancro para o dobro” mas não dizem que cancro é nem qual é essa probabilidade, se é 1:1000 ou 1:10, no entanto se duplicares 1:1000 para 2:1000 ninguém está propriamente preocupado com isso mas se for de 1:10 e passar para 2:10 tu já podes ser esse outro dois, [risos] portanto, a noção de inteligência estatística, isto é, perceber o que a estatística significa, nem os melhores profissionais por vezes têm ideia. Num estudo feito em Inglaterra há uns anos atrás sobre o que significava uma mulher ir fazer uma mamografia e ter um teste positivo em termos de probabilidade de vir a desenvolver um cancro da mama fez esta pergunta a 100 médicos diferentes e se olharem para os resultados há médicos que disseram que seria 90%, outros 80%, 20%, 5%… Tens 100 médicos a responderem a todos esses valores, e repara o que é para uma mulher, ir fazer uma mamografia e ao obter um teste positivo o médico dizer-lhe que tem uma probabilidade de 90% de ter cancro. Dos 100 médicos, só 2 acertaram… Isto é ignorância estatística que cria um grande impacto na vida das pessoas. Há milhares de jovens com idades entre os 20 e os 30 anos em Inglaterra que já fizeram mastectomias duplas porque tem os dois genes BRCA 1 e BRCA 2 na sua constituição genética e como não querem vir a ter cancro da mama eliminaram os dois seios… Isto é uma decisão muito difícil e, portanto, a capacidade de nós compreendermos a informação técnica que nos é dada é muito pequena e continua a ser muito, muito pequena. Mais, tu quando vais comprar comida ao supermercado quantas pessoas vês a ler a informação que lá está escrita sobre os nutrientes e ingredientes? Está lá a informação toda, no entanto as pessoas não só não se importam com o que está escrito, mas mesmo que lessem não percebiam… O mesmo com os folhetos nas caixas dos comprimidos… Portanto uma coisa é a informação disponível, a outra é aquela a que vais à procura e outra é a que tu percebes, que cada vez é menos… [risos].

Eu normalmente vou todos os meses falar a uma escola, ultimamente tenho ido com menos frequência porque estou cá menos tempo. Mas eu acho que a única solução é falar cada vez mais e questionar as pessoas para saber se elas percebem ou não, passar tempo, ter esta conversa… A informação hoje em dia está cada vez mais disponível. Tu não tens falta de informação e é ainda importante pensar se ela é fidedigna. Outra questão é interpretar esta informação, tu sabes fazê-lo? O que é que um dado te diz? A cada medicamento que tu tomas ou eu tomo, o público em geral não sabe que as primeiras 10 000 pessoas foram cobaias em testes a esse mesmo medicamento e que foram ainda necessárias mais 10 000 como placebo. Quer dizer, isto é um conceito um pouco perturbante, como é que a uns se dá o medicamento e outros não sabem se o tomaram ou não. Será isto ético? Hoje em dia o que se faz nos ensaios clínicos é testar uma nova droga fazendo uma comparação com a melhor droga existente para o mesmo efeito. Além disso, percebe-se atualmente que o efeito de cada droga vai variar conforme a genética de cada pessoa. É por isso necessário regressar àquela velha questão de perceber o que é o risco e se sabemos interpretar o risco.

 

NEB/C. – Entre os objetivos do Horizon 2020 encontra-se o combate à desigualdade de género na comunidade científica. Qual o estatuto atual da Mulher Cientista na Europa? E em Portugal em particular?

Eu acho que Portugal é um dos países que, curiosamente, deu mais passos nessa direção. Nós somos um dos países em que a igualdade de género no conhecimento está mais próxima daquilo que se consideraria o desejável, dado que Portugal investiu muito nestes últimos 20 anos para estimular a entrada das mulheres no meio científico. Um estímulo importante nesta alteração foi a revolução de Abril em Portugal, que foi muito mais importante para as mulheres do que para os homens. Os homens ganharam liberdade política, mas as mulheres ganharam não só liberdade política bem como todas as outras todas que não tinham.

A minha mãe quando me queria levar de férias tinha de ter um papel selado com a assinatura do meu pai, reconhecido em notário de que ela podia sair comigo de férias. Antes, os maridos em Portugal tinham o direito de ler a correspondência das mulheres. As mulheres não podiam ter contas bancárias, independentes. As mulheres não podiam ter carta de condução sem autorização dos maridos. Por isso, a revolução de Abril deu às mulheres uma liberdade muito superior àquela que deu aos homens. Portanto em Portugal as mulheres investiram muito no conhecimento, investiram em ir cada vez mais para as escolas, para as universidades, etc. No entanto, há determinadas posições a que elas ainda não conseguiram chegar. Há poucas mulheres no Parlamento, há poucas mulheres reitoras, há poucas mulheres ministras, há poucas mulheres juízas do Supremo. Mesmo assim, Portugal até está bem situado na Europa, onde o sistema está muito mais desequilibrado. Por exemplo, o curso de Engenharia nesses países que não Portugal, quase não têm mulheres e a Comissão Europeia está muito sensível a isso.

Como futuros cientistas devemos assumir a emigração como algo crucial para garantir uma carreia profissional estável? Há lugar para os jovens com esta ambição no nosso país?

Essa pergunta é muito difícil [risos]. Eu acho que toda a gente devia passar pelo menos 5 anos fora do país. Em que altura fazer isso é outra questão. Eu gostaria de acreditar que há oportunidades sólidas para quem quiser fazer investigação, pode-la fazer também no nosso país, que estava no caminho certo até 4 anos atrás. Portugal era usado como exemplo no mundo inteiro, o José Mariano Gago teve um papel importantíssimo nisso, ele investiu em todas as áreas do conhecimento, não só na área da saúde e da engenharia mas também nas áreas sociais e humanas. No entanto, nos últimos 4 anos as bolsas desceram de uma forma dramática, os investigadores também bem como o investimento e eu espero que agora o crescimento seja retomado. Antigamente quem emigrava eram pessoas sem formação superior, no entanto hoje emigram pessoas com elevadas qualificações. Eu não vejo problemas na saída de “cérebros”, desde que haja entrada de novos. Se forem 50 000 portugueses lá para fora e entrarem 50 000 dos outros países não há problema, ainda que isso não se tenha verificado nos últimos anos. Vocês sabem Física suficiente para saber que quando há crescimento muito rápido depois há oscilações e entramos num processo turbulento. A oscilação que houve nestes 4 anos foi muito grande, houve uma subida e descida muito acentuadas e agora vamos ter de subir outra vez aos poucos. Eu gostaria de acreditar que há em Portugal, que haverá em Portugal, tantas oportunidades como em outros países. Ainda assim, isso não significa que eu não ache que toda a gente deva passar pelo menos 5 anos lá fora, essencialmente porque estes anos são difíceis e aprende-se muito com isso.

Maria Francisca Pessanha – NEB

Para os curiosos: