Aceitar e vencer, por fim

Já dizia o autor Henry David Thoreau que “Se um homem marcha com um passo diferente do dos seus companheiros, é porque ouve outro tambor.”
Ser diferente na sociedade atual não é, como sabemos, tarefa fácil. Neste pequeno texto de Eduardo Gomes, aluno do 2º ano de Medicina Veterinária, somos levados numa pequena viagem acerca da aceitação da diferença, por nós próprios e a sociedade.
Artigo integrante da nossa rúbrica “Tudo género, tudo sexualidade” convidamos-vos a ler e, quem sabe, pensar um pouco no assunto.

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Ser homossexual numa sociedade regida por padrões heterossexuais constitui uma constante batalha contra estigmas e normas retrógradas. Assim, a sociedade atribui um grande valor à experiência de alguém se assumir perante amigos, pais, e os outros em geral.

No entanto, o maior obstáculo que sinto que tive de ultrapassar foi a luta contra mim mesmo. Foi apenas há cerca de 5 anos que olhei para mim próprio e senti que algo não batia certo.

Neguei-me, combati ferozmente uma parte de mim que não me sentia capaz de aceitar. Talvez pelo medo da mudança, talvez por receio do que o mundo poderia pensar, com certeza por ser inevitavelmente uma vítima  de “padronamento”. Contudo, houve um ponto de viragem, um momento em que entendi que tentar escapar à verdade era simplesmente inútil. Porquê negar a mim mesmo quem era? Não passava de uma atitude doentia e destrutiva.

Com o apoio certo entendi esta nova parte de mim. Ainda assim, foi um longo caminho que percorri desde esse momento até hoje. Nessa altura não passava de um jovem ainda amedrontado, sem total compreensão de mim, do mundo que me rodeava e do poder que eu tinha. Passei largos tempos a rotular-me como bissexual, talvez porque assim me aceitariam melhor, pensava eu, e não seria tão diferente dos outros. Ninguém me odiaria, portanto.

Só há cerca de dois anos é que fui capaz de dizer “não!” e tomar completo controlo de mim. Sim, porque não há ninguém que me possa odiar pelo que eu sou, uma vez que, apenas porque existem padrões, não quer dizer que estes não sejam mutáveis, ou até mesmo que eu não seja não padronizável.

Pois bem, esta luta foi longa e dolorosa, um caminho sinuoso, pautado por medo. Porém, chegou por fim o dia em que pude olhar ao espelho sem medo de ver quem sou, sejam as implicações desta imagem as que forem. Nunca a travei sozinho e duvido que alguma vez pudesse ser a pessoa que sou hoje sem ter tido o apoio que tive.

Acima de tudo está a minha aceitação pessoal, provavelmente a barreira mais difícil de superar, e, todavia, a que me trouxe mais paz, a melhor compreensão do “eu”, daquilo que mereço e de tudo o que não deveria ter negado.

Texto por Eduardo Gomes
Ilustração por Magda Pacheco