A melhor coisa que podíamos fazer por África… era sairmos todos de lá

Nunca pensei muito na questão do voluntariado internacional, nem nunca pensei nele como uma questão controversa. Tenho alguns amigos que já incorreram em excursões para África, fizeram trinta por uma linha para arranjar fundos e, no verão, foram, fizeram o que era suposto, e voltaram inspirados, torrados e a precisar de umas boas refeições e de um banho quente.

É neste estado de total ignorância sobre o tema, que no dia 5 de Maio de 2016, me dirijo ao Espiga, para a rubrica “Viagem ao Mundo (sem sair do sofá)”, onde o Noberto Lopes Pinto, nos vai contar a sua viagem de muitos meses no continente africano, desde Málaga até à África do Sul, e com experiências de voluntariado no Mali, no Uganda e no Quénia.

O que vou relatar são opiniões e factos que fui ouvindo do Norberto e dos outros convidados, porque assim que a discussão abriu, gerou-se uma atmosfera de espanto e inquietação à medida que cada uma de nós ia construindo uma nova visão do voluntariado em África.

Então questionemo-nos: que impacto tem o voluntariado sobre as comunidades? Será assim tão positivo? Será que cada um de nós tem legitimidade para ir a África um mês ensinar pessoas que todos os dias lutam pela sobrevivência? Será?


África é um destino de turismo de voluntariado

Vamos partir do principio, do caso mais simples. Um voluntário vai um mês para África, é inserido numa comunidade, demora o seu tempo a adaptar-se, faz jogos, brincadeiras com os miúdos, ensina o que acha que eles precisam de aprender, diverte-se… Ao fim de um mês esse voluntário volta para o seu país e outro, quem sabe se de nacionalidade diferente, ocupa o seu lugar e volta a fazer tudo do principio. Ao fim de um ano neste ritmo, o que ganharam efetivamente os locais com esta dinâmica? Aprenderam alguma coisa? Ou também eles tiveram de se adaptar a novas pessoas todos os meses, esquecer tudo o que uma pessoa ensinou para se adaptarem a cada novo método, a cada novo ensino?

Uma intervenção intermitente, desregrada, é isso o que o pequeno voluntário leva para África.

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Explorar a pobreza

Vamos centrar-nos agora nas organizações de voluntariado mais permanentes: elas vendem-nos pacotes de voluntariado. Dizem-nos “precisas de 2000€ para vir para África 1 mês trabalhar com órfãos”. Nós, relutantes, damos os 2000€, pensamos “mas eu não vou gastar este dinheiro todo”, e depois segue-se a aceitação: “mas o dinheiro vai ajudar os locais, deve ser para desenvolver as infraestruturas, para ajudar os carenciados…” Na realidade (e claro que haverá as exceções), muitas dessas organizações têm fins lucrativos, ou seja, de acordo com o nosso exemplo, montam mais orfanatos e encontram mais órfãos do que os que realmente existem… Para os pais dessas crianças, o facto de elas terem teto, comida e estarem vigiadas, é vantajoso. Para os responsáveis pelos projetos é bom, porque os voluntários dão o dinheiro. Para o voluntário, que na sua ignorância pensa que irá fazer a diferença, é um tempo bem passado.

Todos ganham nesta equação. Será? Ou será isto uma exploração da pobreza? Um branco chega a África, abre orfanatos, traz voluntários e dinheiro, mete dinheiro ao bolso. Os africanos adaptam-se ao sistema, aproveitam-se de quem lá vai, contam mentiras que apelam à compaixão, conseguem assim obter do branco ainda mais caridade. O branco, esse só peca por aceitar fazer parte deste sistema.

Boas intenções envenenadas

O Norberto contou-nos que, durante a viagem, veio a Portugal numa altura em que a mãe ficou doente. Na volta levou uma mala cheia de roupa para dar aos locais. Carregou a mala horas a fio, pagou bagagem extra, e levou a roupa para África. Quando voltou ao país, viu à berma da estrada locais a venderem roupas e sapatos, e nessa altura fez-se luz. Se ele entregasse a roupa de graça, as pessoas não iriam comprar a roupa a quem a vendia. Nesse dia, essas pessoas passariam dificuldades. Estava a interferir na microeconomia do país, nessa economia frágil e rudimentar.

Um voluntário chega a uma cidade e projeta uma reabilitação de um espaço. Durante várias semanas, pinta paredes, serra madeira e mata-se a trabalhar. Ao mesmo tempo, uma série de nativos sem emprego observam o voluntário a trabalhar, riem-se, espreguiçam-se à sombra. Não seria o nosso dinheiro mais bem empregue a empregar essas pessoas que não trabalham? Porquê comprar uma passagem e estadia para fazermos o trabalho que os que lá habitam estão aptos a fazer em troca de remuneração mínima? Não estamos a ajudar, estamos a  fazer figura de ursos!

Outro exemplo que dá que pensar e que enquanto mulher me tocou bastante: numa aldeia, para se conseguir a água, as mulheres têm de andar 3kms para chegar ao poço. Um europeu chega lá, coloca uma bomba de extração na aldeia, e as mulheres deixam de terem que ir ao poço, o que, até aqui, parece uma ideia fantástica. Mas, e se aquela hora da ida ao poço for a única hora do dia em que aquelas mulheres estão “entre mulheres”, sem os maridos, a única hora em que lhes é concedido tempo para ter “conversas de mulheres”? Parece sensato intervir assim nas tradições, nos ritmos daquelas gentes? Parece correto impingir o nosso estilo de vida, as nossas facilidades, fazê-los acreditar que querem ser como nós?

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As grandes ONG’s

África é um campo de exploração das grandes potências mundiais, é um lugar entulhado de corrupção.

Portanto, o que me estão a dizer é que exploramos África, impedimos o crescimento natural da economia, impedimos constantemente que o continente venha à tona da água respirar e desenvolver-se, e depois sobrevoamos o continente e atiramos embrulhos do ar? Distribuímos ração ao povos que roubamos e reprimimos?

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Voluntariado de emergência

Quero fazer uma ressalva, por ser algo que me toca de uma maneira especial, para o voluntariado de emergência. Nós detemos o conhecimento e os recursos para realmente intervir em muitas situações, para ajudar a salvar vidas. Em última instância, acho que até lhes devemos isso, tendo em vista o sufoco que o mundo tem imposto sobre aquele continente. Nem todo o voluntariado é mau, nem todo é dispensável.medical-volunteer-1200

Posto tudo isto, depois de clarificar algumas ideias, de me dispor a pensar na situação após me terem aberto as páginas certas do livro, apelo a que façam o mesmo, que leiam e se informem, antes de ingressarem em duras expedições para “salvar” o mundo, e antes de orientarem os vossos fundos sabe-se lá para quê. Aqui, onde nós estamos, há muito para fazer. Se querem ensinar: pois muito bem, façam-no.

Distribuam informação e cultura pelos grupos mais jovens, distribuam carinho e ajuda aos mais velhos, e proteção à natureza. E viajem, conheçam África, a Ásia, a Europa. Se não for de comboio, que seja, de livro na mão! Ou então venham ao Espiga ouvir estas histórias de quem andou por lá, e “viajem sem sair do sofá”. Assim, recomendo à priori a leitura do livro do Norberto, África nos sentidos, que tive o prazer de folhear, porque se uma pessoa já ensina tanto em duas horas, certamente fará mais e melhor ao longo daquelas páginas

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Texto por: Inês Pacheco