40 anos do ICBAS

O ICBAS torna-se este ano um quarentão, o que nos faz a todos pensar no passado. A Corino investigou e traz-te a sua história, e depoimentos de vários Professores e ex-alunos, ligados, na sua maioria, aos primeiros anos da nossa faculdade.

20 anos ICBAS

Átrio do edifício antigo do ICBAS, no seu 20º aniversário

Fotografia da Professora Corália Vicente

Da história

Entre os inúmeros frutos do legado ideológico e científico do Professor Doutor Abel Salazar, conta-se o nosso ilustre Instituto, fundado pelos clínicos Nuno Grande, Corino de Andrade e o matemático Ruy Luís Gomes, no ano de 1975.

A sua criação foi impulsionada no rescaldo da Revolução de Abril, prometendo uma lufada de ar fresco ao ensino médico até então praticado na cidade do Porto. À semelhança do seu mentor, o ICBAS pretendia ser uma escola multifacetada e de ampla formação científica, integrando no ensino clínico as restantes Ciências da Vida.

A Medicina deu, sem dúvida, o mote para o início da escola, mas esta expandiu-se rapidamente, tendo sido oficializadas as Licenciatura em Ciências do Meio Aquático (CMA) e em Bioquímica em 1981. As restantes adições concretizaram-se no ano de 1994, com a Licenciatura em Medicina Veterinária, e em 2005, com o Mestrado Integrado em Bioengenharia.

Para a história do ICBAS que, no seu formato se parece a tantas outras, é imprescindível o papel dos Estudantes, que acreditaram neste projeto e se dedicaram a fazer o máximo no seu tempo enquanto tal. Hoje, por isso, contamos com os mais variados grupos da casa, como um grupo de teatro, o S.O.T.A.O; as tunas masculina e feminina, respetivamente, a TAB e a TFB; o Coral, o CICBAS; o Grupo de Fados e Guitarradas de Biomédicas e a Associação de Estudantes, a AEICBAS. Mais recentemente, destacam-se ainda a associação de voluntariado universitário VO.U, cuja fundação está muito ligada à nossa faculdade, e um núcleo de cinema, o cineICBAS.

O ICBAS, enquanto faculdade, tem uma história, como tantas outras: com distinções, prémios e vitórias e outros tantos dissabores, como o incêndio que deflagrou, no ano de 1992, na nave central do antigo edifício.

20 anos icbas, II

Comemorações do 20º aniversário do ICBAS, no átrio do edifício antigo do ICBAS

Fotografia da Professora Corália Vicente

 

Depoimentos

Como denominador comum, todos exaltam o ambiente intimista e a paternalidade do ensino experienciados por todos os alunos, Professores e funcionários, do passado e presente.

O Professor José Fernando Gonçalves, do primeiro curso de CMA, atual regente de Engenharia e Maneio em Aquicultura e Tratamento de Água e Efluentes, destaca a “qualidade científica e humana dos docentes e o profissionalismo dos seus técnicos”, durante o seu percurso académico e profissional, e aponta o “espírito inconformado e visionário dos seus fundadores” como os fatores que norteiam “a evolução notável na investigação científica, valorização do conhecimento e prestação de serviços à comunidade”.

O lema “Quem só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”, inscrito no edifício antigo do ICBAS, sugere a multidisciplinaridade subjacente ao exercício da Ciência. António Rocha, Professor do Mestrado Integrado em Medicina Veterinária (MIMV), descreve que, não obstante as dificuldades ao nível das instalações e do equipamento aquando da sua chegada, em 1996 (o Professor tinha vindo da Louisiana State University), “encontrou na investigação, um espírito de missão e de fraternidade, que eram estimulantes” e que atualmente ainda mantém essas colaborações interdisciplinares.

“O ICBAS era uma faculdade pequena, com princípios e ideologias diferentes do habitual […] com uma formação mais generalista e também mais vocacionada para a investigação”, refere Carlos Carvalho, Professor de Saúde Pública. ”O ICBAS «velho» era a minha segunda casa (ou primeira), ocupando as aulas apenas uma pequena parte do tempo que lá passava”, continua o Professor, que exalta os momentos vividos como aluno e membro de um grupo académico – o CICBAS.

Serafim Miguel Guimarães, aluno entre 1983 e 1990, enumera vários aspetos irreverentes à data, desde a “receção ao caloiro, a partilha de apontamentos e sebentas, as aulas que às vezes eram dadas nos corredores por falta de espaços, as festas, o acolhimento aos colegas de fora, o associativismo, os serrotes, a representação fora, a alegria que a maioria manifestava por pertencer àquilo” e acrescenta que “a permanente ameaça de encerramento unia as pessoas”.

O ICBAS é “feito de pessoas normais, aceitando as nossas diferenças pessoais, e as mais óbvias que são as de formação (essa multidisciplinaridade que nos dá alma), orientadas pela extraordinária generosidade de pessoas brilhantes”, segundo a Professora Paula Proença, médica veterinária e professora de Anatomia, que enaltece o valor dos grandes fundadores da faculdade.

Pedro Moradas Ferreira, Professor Catedrático de Bioquímica, que esteve envolvido na criação da Licenciatura Bioquímica, em parceria com a Faculdade de Ciências, e do Mestrado Integrado em Bioengenharia, com a Faculdade de Engenharia, ambas a Universidade do Porto, exalta a evolução crescente e assaz consistente e elogia: “a forma de gestão é boa, os órgãos diretivos continuam a fomentar a qualidade do ensino, há um maior investimento em investigação, as condições de trabalho têm qualidade e existe uma dinâmica positiva que se traduz pela multidisciplinaridade das ofertas de formação no ICBAS”.

Fátima Gärtner, Professora Catedrática de Patologia e investigadora do IPATIMUP, verifica uma grande mudança ao nível do ensino, relativamente ao passado e identifica os estudantes como “o motor impulsionador” de grande parte do seu percurso de docente.

Jorge Mota, assistente de Psiquiatria, releva o “espírito de solidariedade e camaradagem, bem como o incentivo à descoberta e aprendizagem cultural” como apanágio do ICBAS.

É sempre constante, nos depoimentos obtidos, o binómio ideologias/sentimentos, onde ciência, cultura e solidariedade norteiam a evolução na formação do ICBAS.

Tiago Guimarães, cirurgião plástico no Reino Unido e aluno do ICBAS entre 2000 e 2006; Marina Costa, hematologista e aluna entre 1978 e 1988 e Vítor Pereira, licenciado em CMA em 1983, realçam ainda o humanismo, a persistência e os valores incutidos aquando do seu percurso académico, bem como os contactos e as amizades desenvolvidas até ao presente.

expo fotos o nosso passado aos pedaços, 1996

Exposição de fotografia “O nosso passado aos pedaços”, 1996

Fotografia da Professora Corália Vicente

A cerimónia oficial

 No dia 10 de abril, no salão do nobre do complexo ICBAS/FFUP (Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto), ocorreu a cerimónia oficial dos 40 anos do ICBAS, que foi conduzida pela Professora Corália Vicente. Estiveram presentes na mesa, o Dr Sollari Allegro, Presidente do Conselho e Admnistração do Centro Hospitalar do Porto; a Doutora Guilhermina Rego, Vice-Presidente da Câmara Municipal do Porto; o Dr Paulo Macedo, Ministro da Saúde; o Professor Sebastião Feyo de Azevedo, Reitor da Universidade do Porto; o Professor José Ferreira Gomes, Secretário de Estado do Ensino Superior; o Professor António Sousa Pereira, Diretor do ICBAS e Sarah Oliveira, Presidente da AEICBAS.

A cerimónia contou com os discursos do Dr Paulo Macedo, do Professor Sousa Pereira, da Sarah Oliveira, do Doutor Paulo Cunha e Silva, do Professor Alberto Amaral (Presidente do Conselho de Admnistração da A3ES), da Doutora Guilhermina Rego, do Professor José Ferreira Gomes e do Professor Sebastião Feyo de Azevedo. Todos realçaram a excelência do ensino e da investigação existentes no ICBAS. É ainda de realçar a atribuição da Medalha de Serviços Distintos, Grau Ouro, ao ICBAS, pelo Ministro da Saúde; a apresentação do Doutor Paulo Cunha e Silva, atual Vereador da Cultura na Câmara Municipal do Porto, médico e ex-aluno do ICBAS, intitulada “Como levei longe de mais o aforismo «um médico que só sabe de Medicina nem Medicina sabe» e o protesto silencioso de um grupo de cerca de 50 aluno, enquanto o Diretor discursava, exibindo cartazes relativos a problemas do ICBAS, com frases como “quero ver o meu exame”, “Os professores também chumbam”, “Quem vem ao aniversário tem falta!”, “O único obstáculo ao ICBAS é o ICBAS”, “Reservar salas, pede à FFUP” e “A auto-crítica é a arma secreta da democracia académica”.

Por fim, foram entregues peças relativas à ocasião em causa aos Professores Alberto Amaral, Novais Barbosa, Marques dos Santos, António Cardoso e Catarina Grande (como filha do falecido Doutor Nuno Grande) e a alguns dos membros restantes da mesa: o Dr Sollari Allegro, a Doutora Guilhermina Rego, os Professores José Ferreira Gomes e Sebastião Feyo de Azevedo.

mesa cerimónia

Mesa da cerimónia.

Da esquerda para a direita: Dr Sollari Allegro, Doutora Guilhermina Rego,  Dr Paulo Macedo, Professor Sebastião Feyo de Azevedo, Professor José Ferreira Gomes, Professor António Sousa Pereira e Sarah Oliveira.  À esquerda da mesa, a Professora Corália Vicente

Fotografia de Joana Marinho Silva

 

A Corino tentou contactar o Doutor Paulo Cunha e Silva, mas até à data, não conseguiu.

A Corino agradece a todos os que se prontificaram a contribuir com o seu testemunho. Deixamos também um obrigado à Professora Corália Vicente, que nos ajudou com os contactos a estabelecer e cedeu as suas fotografias.

 

 

Ana Rita Veiga

Beatriz Neves

Madalena Cabral Ferreira

Fotografias: Professora Corália Vicente e Joana Marinho Silva