24 de março, Dia Nacional do Estudante

O dia 24 de março é, em Portugal, o Dia do Estudante. Foi escolhido em 1987, na Assembleia da República, em memória da crise académica de 1962, em Coimbra.

A Corino considera que, sendo uma revista de Estudantes para Estudantes, não podia deixar passar esta ocasião em branco, e convida-te a um a reflexão sobre o tema. Começamos por uma brevíssima revisão da história do movimento estudantil, e o seu papel a nível mundial e nacional, e passamos para uma secção de depoimentos de 4 dirigentes associativos, com experiências e visões diferentes do que é o associativismo estudantil: por ordem alfabética, temos então a Catarina Morais, estudante de doutoramento na Universidade de Kent, Presidente da AE da FPCEUP (Faculdade de Psicologia e Ciência da Educação da Universidade do Porto) e secretária da Mesa da FAP (Federação Académica do Porto) em 2013/14; Luís Monteiro, licenciado em Arqueologia e Estudante do Mestrado em Museologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), Vice-Presidente da AEFLUP; Pedro Correia de Miranda, Estudante do 6º ano do Mestrado Integrado em Medicina, no ICBAS. Liaison Officer to the World Health Organization International Federation of Medical Students’ Associations e Sarah Oliveira, Presidente da AEICBAS. Por fim, informamos-te sobre a atividade da FAP deste ano para assinalar este dia.

 

A história do movimento estudantil, o seu papel a nível mundial e nacional: uma brevíssima revisão

Apesar de existirem instituições de Ensino considerado Superior desde a Antiguidade, a Universidade como a conhecemos surgiu na Europa medieval com a Universidade de Bolonha. Mais tarde nasceu a Universidade de Paris, em 1150. Sendo locais de reunião de estudiosos e intelectuais, as universidades sempre foram associadas ao ativismo político, económico ou simplesmente o berço de mudanças sociais de maior ou menor relevância. Neste contexto, relatos de manifestações, motins, reivindicações e protestos, aparecem desde a própria fundação da Universidade como instituição independente.

O ativismo por parte de Estudantes e outros membros da Universidade teve uma função decisiva ao longo da História, sendo muitas vezes a ignição de importantes mudanças sociais: passando pela Reforma Protestante, Revolução Francesa, queda do regime czarista na Rússia, até aos mais recentes Maio de 68, Primavera de Praga, Primavera Árabe e Revolução dos Guarda-Chuvas Amarelos em Hong Kong. Outros protestos ligados ao ativismo estudantil resultaram em marcos históricos pela sua gravidade, de salientar os massacres de Tiananmen, Pequim e de Tlatelolco, Cidade do México.

 

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Cartazes divulgados em Paris em 1968. Eram produzidos e impressos por estudantes que ocuparam a Escola de Belas-Artes.

Ainda assim, ativismo não se define como um qualquer movimento conducente a revoluções ou massacres, muito pelo contrário. De acordo com o Dicionário Priberam da Língua Portuguesa, designa-se por ativismo “a propaganda de uma doutrina ou atitude moral de forma ativa”. A história do ativismo estudantil está portanto intimamente relacionada com o contexto em que se insere, seja este social, geográfico, político, económico ou ambiental. As doutrinas são variadas e também a forma de as expressar. Deste modo, o ativismo pode ser individual ou coletivo; violento ou não violento; local ou global. Muitas conquistas sociais desencadeadas por ações estudantis não são tão somente grandes revoluções, mas modificações lentas ou menos lentas na forma de pensar da Sociedade, em particular no que toca aos direitos das minorias. Este facto é bem notório ao longo do século XX, que assistiu a um sem-número de mudanças rápidas e radicais, pondo em causa valores estéticos, morais, religiosos, entre outros.

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 Um homem enfrenta sozinho uma fila de tanques, a 5 de junho de 1989,

na Praça Tiananmen, em Pequim

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Capa da revista Time, retratando uma manifestante

na revolução dos guarda-chuvas, em Hong-Kong

Em Portugal, os Estudantes Universitários adquiriram um papel mais relevante a partir do século XIX, época em que abundaram em Coimbra os manifestos e os movimentos pela reforma generalizada das tradições e costumes, liderados por Antero de Quental. Coimbra foi aliás palco de vários episódios turbulentos, nomeadamente após a Implantação da República, mas particularmente durante o regime salazarista. Um dos mais expressivos levantamentos estudantis contra o Estado Novo constituiu a crise académica de 1962, ano em que se realizou o primeiro Encontro Nacional de Estudantes, não permitido pelo governo de então. Instauraram-se processos disciplinares e vários alunos foram suspensos; o luto académico foi decretado e os Estudantes responderam com greve às aulas. Já em Lisboa, pretendia-se comemorar o Dia do Estudante, tendo sido escolhida a data de 24 de Março. Várias Associações de Estudantes participaram na organização e as comemorações foram iniciadas na Cidade Universitária, que foi, no entanto, invadida pela polícia de choque. Houve Estudantes espancados e presos, cantinas encerradas e, uma vez mais, foi decretado o luto académico. A partir deste momento, a Universidade passou a ser um local de confronto permanente com o regime.

 

 

coimbra

Crise académica de 1969. Esta começou quando foi negado o uso da palavra aos Estudantes durante uma inauguração. Ao luto académico e à greve seguiu-se a prisão de vários Estudantes e a mobilização para a Guerra no Ultramar.

 

 

Para saber mais:

Student Resistance: a history of the unruly subject; Mark Edelman Boren ISBN:1135206457

http://www.esquerda.net/virus/media/virus12.pdf

 

 

Passamos agora para os depoimentos (apresentados por ordem alfabética):

A Corino investigou, e traz-te testemunhos de dirigentes associativos com diferentes experiências. A todos fizemos as seguintes perguntas: “Como vês o associativismo estudantil em Portugal?” e “Qual é para ti o papel das AEs?”. Em comum, todos referem o papel ativo dos Estudantes com agentes de mudança e as consequências da crise económica para o Ensino Superior público. Porém, têm diferentes interpretações do que fazer. Eis o que nos dizem!

Catarina Morais, psicóloga, estudante de doutoramento na Universidade de Kent, Presidente da AE da FPCEUP (Faculdade de Psicologia e Ciência da Educação da Universidade do Porto) e secretária da Mesa da FAP (Federação Académica do Porto) em 2013/14.

Destaca o papel da ação social, e dos novos mecanismos criados, face à atual situação de crise económica que o País atravessa.

 “Falar de associativismo estudantil no Ensino Superior em Portugal é falar de uma atividade que, apesar de voluntária, tem muito de profissional na sua ação. As exigências às quais os atuais dirigentes têm de dar resposta requerem uma elevada eficácia e eficiência. Requerem profissionalismo e compromisso. De tudo o que pode ser dito sobre o associativismo estudantil, talvez o que mais destaco neste momento seja a tentativa de inverter a tendência da crítica pela crítica, pela oposição, pela agenda. O movimento nacional estudantil tem-se pautado, maioritariamente, por uma enorme sobriedade naquilo que são as suas propostas: identificar problemas e apresentar novas soluções há muito se tornou insuficiente e os Estudantes, na sua discórdia, têm sido capazes de compreender isso. O associativismo estudantil tem sido exemplar nessa identificação e nas soluções que apresenta, na forma consciente e realista com que as tem apresentado, sabendo posicionar-se face ao momento que o País atravessa. Mais importante, não se tem limitado a reconhecer a necessidade de maior apoio (e não só financeiro!), tem procurado o diálogo do qual outros já desistiram, caracterizando-se pela busca incessante de mais e novas soluções, criativas, com os recursos já existentes.

Não creio que o papel das Associações de Estudantes tenha vindo a sofrer grandes alterações, na sua essência. Talvez o panorama venha reforçar a importância de estas se apresentarem nas diversas plataformas de representação estudantil, garantindo que os interesses daqueles que as elegeram se encontram assegurados. Por outro lado, fatores como a crise socioeconómica e a massificação do ensino superior (entre outros) tornam premente a sua ação em vertentes tradicionalmente menos exploradas, destacando-se particularmente a ação social (direta e indireta). A realidade dos estudantes é especialmente preocupante nesta fase e as AEs assumem um papel preponderante na aproximação com os Estudantes (neste caso, em situação de dificuldade), podendo ser o intermediário mais eficaz com os mecanismos que existem (e na criação de novos também!) para o combate a estas situações. É crucial que as AEs estejam atentas a casos mais graves e próximas dos seus Estudantes, para que estes se sintam também confortáveis em expor a situação. Por outro lado, a manutenção e criação destes mecanismos de resposta só é possível na presença de um diálogo aberto com os Órgãos de Gestão das faculdades, de forma a criar condições para a cooperação. Medidas “simples” como a criação de fundos para senhas de almoço (ou outros fins) e para desbloqueamento de situações de emergência e a possibilidade de os estudantes negociarem com as faculdades um plano diferenciado de pagamento de propinas, constituem algumas das ações que têm integrado o plano de intervenção de várias instituições da Academia do Porto, tendo sido decisivas para muitos Estudantes se manterem no Ensino Euperior. Acima de tudo, é importante que as AEs não sejam um eco da opinião dos seus Estudantes, mas a sua voz, apresentando-se nos momentos de discussão e lutando para que as suas ações sejam consequentes.”

 

não te cales, fap

 

Fotografia do movimento “Não te cales!”, pelos direitos do Estudantes, no seu dia, em 2014. Foi organizado pela FAP

 

 

Luís Monteiro, licenciado em Arqueologia e Estudante do Mestrado em Museologia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), Vice-Presidente da AEFLUP.

Um outro olhar sobre o movimento estudantil e as AEs, realçando a ligação entre o Ensino Superior público e a política, e o papel insurgente dos Estudantes.

 “É paradigmático olhar o estado do País desde que as políticas de austeridade foram implementadas e o movimento estudantil se tornou um dos únicos setores da Sociedade que não tem respondido à emergência na resposta cidadã contra a devastação das condições do Estado Social. As instituições que representam os Estudantes institucionalizaram-se, têm mantido sempre uma promíscua proximidade com os espaços de decisão política e os vários governos e, em vários momentos, são elas o entrave a que o movimento estudantil consiga, com mais força, dar uma resposta cabal ao assalto legal à educação pública que o discurso chantagista sobre a dívida tem legitimado. Ainda que o momento não seja o mais feliz, nas vésperas do Dia do Estudante (24 de Março), é sempre um bom exercício de memória relembrar a coragem dos estudantes que, nos tempos da Ditadura, enfrentaram o regime, imaginaram um país diferente e lutaram por ele.

Em França existe uma forte tradição do sindicalismo estudantil. O modelo baseia-se não diretamente na tradição sindical do mundo do trabalho, mas em coletivos estudantis, sejam de associações académicas ou não, com o principal objetivo de criar uma voz mais forte no combate pelos direitos dos estudantes e por um ensino público mais democrático, inclusivo e justo. É esse o sentido que as associações de estudantes devem pensar em primeira instância, quando desenham a sua linha de ação. Não podemos arredar o ativismo estudantil da política. Se a entregarmos aos seus profissionais, ela fica refém do debate institucional. Uma AE é, por isso, um espaço de ação política. É o instrumento que capacita os estudantes de se organizarem e construírem uma narrativa mais forte. Mas não digo, com isto, que a ação política se resume a uma intervenção sobre os debates que os políticos trazem à sociedade civil. O sentido desta intervenção política é exatamente inverso: obrigar os decisores a pensar a educação e o ensino noutra perspetiva política resume-se a uma intervenção sobre os debates que os políticos trazem à sociedade civil. O sentido desta intervenção política é exatamente inverso: obrigar os decisores a pensar a educação e o ensino noutra perspetiva”

 

flup

Ação de protesto na FLUP, 2012

 

 

Pedro Correia de Miranda, Estudante do 6º ano do Mestrado Integrado em Medicina, no ICBAS. Liaison Officer to the World Health Organization International Federation of Medical Students’ Associations (IFMSA)

Uma reflexão sobre a função das AEs, dos Estudantes e dos dirigentes-associativos em Portugal

 “Ouvimos desde sempre falar de associativismo, de Associações de Estudantes, de dirigentes associativos… Mas alguma vez nos perguntamos o que é, o que fazem, quem são? Toda e qualquer Associação de Estudantes tem, como o nome indica, um objectivo apenas: o de associar! Mas sabemos o que significa isto? “Unir, juntar. Reunir para fim comum. Relacionar com” é a definição dada pela Porto Editora, e que definição! O associativismo estudantil em Portugal, por definição, deverá reunir e juntar os estudantes para um fim comum! A responsabilidade de representar quem tem menos voz que eu, mas que enquanto pessoa vale tanto quanto eu, é a bússola de um dirigente associativo. E isto traduz-se por uma panóplia interminável de diferentes cenários: de um nível local a um nível internacional, da organização de um congresso à promoção de atividades desportivas ou culturais, do debate da qualidade de educação à luta por valores em que acreditamos. A minha experiência associativa começou numa casa que, à porta, diz, orgulhosamente, que “um médico que só sabe de Medicina, nem de Medicina sabe”. Creio que, neste enquadramento, podemos dizer que um Estudante que só sabe de estudos, nem de estudos sabe. E é aqui que entra o associativismo. Da Direção da Associação de Estudantes do ICBAS à Direção da InternationalFederationof Medical Students’ Associations, passando pela Direção da Associação Nacional de Estudantes de Medicina, saber mais do que apenas dos estudos foi sempre, e é, a minha prioridade. Saber mais, viver mais, descobrir mais, fazer mais: ser mais! Creio que as Associações de Estudantes em Portugal desempenham um papel essencial. Numa sociedade de meritocracia mergulhada na sombra de uma crise financeira, mas sobretudo social e moral, os Estudantes querem ser mais do que apenas Estudantes. Precisam de o ser. E por isso, associam-se! E assim, a experiência de ser Estudante Universitário é enriquecida. Não me refiro apenas à experiência de umas centenas de dirigentes associativos portugueses. Refiro-me, sobretudo, à experiência dos milhares de Estudantes em Portugal, que estas centenas de dirigentes têm o privilégio de representar, e servir. Enriquecer uma experiência é sempre bom. E por isso, enquanto o associativismo o fizer, o associativismo faz bem! Os Estudantes precisam das Associações de Estudantes, e estas, sem eles, nada são. E por isso, enquanto os Estudantes forem o foco do associativismo, o associativismo faz bem. O ser humano, pela sua natureza, quer sempre mais e melhor! E por isso, enquanto o associativismo der mais e melhor, o associativismo faz bem!”

 

 

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Pedro Correia de Miranda na IFMSA march meeting general assembly, na Turquia.

Março 2015

 

 

 

 

 

 

 

Sarah Oliveira, Estudante do 4º ano do Mestrado Integrado em Medicina. Presidente da AEICBAS.

 

“O associativismo em Portugal é um associativismo de qualidade em comparação com muitos outros países, mesmo a nível europeu. É uma porta aberta para conhecer outras pessoas e realidades para além dos nossos cursos e promover o espírito interventivo e crítico na sociedade portuguesa. Acima de tudo, é uma escola que nos atribui competências que não adquirimos em nenhum livro, nem no curso.

O papel das associações de estudante deve ser multidisciplinar e transversal. Não se pode resumir a organizar atividades lúdicas e culturais, mas também atividades formativas. Deve representar os interesses dos estudantes e tentar intervir naquilo que é mais importante para os mesmos: as condições pedagógicas, condições essas que marcam acima de tudo a qualidade de uma escola.”

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Sarah Oliveira no “Training 4all”, atividade da Associação Nacional de Estudantes de Medicina (ANEM).

Setembro de 2014

 

 

 

 

 

 

 

Por fim, divulgamos a atividade da FAP deste ano para assinalar o Dia Nacional do Estudante:

Entre os dias 23 e 25 de março, estão a decorrer ações de sensibilização nas diversas faculdades, pedindo-se aos Estudantes que tirem fotografias com cartazes com diferentes frases que refletem as atuais preocupações dos Estudantes, divulgando-as pelos meios das várias AEs e da FAP. Informamos ainda que no dia 24 de março, pelas 21h, decorrerá uma decorrerá uma conferência subordinada ao tema “A importância da formação Superior”.

 

Madalena Cabral Ferreira

Raquel Borges