2018 – A música em revista

2018. Tenho tido dificuldade em arranjar maneira de descrever este ano, tanto para mim como para a sociedade em geral. Talvez seja melhor dizer que 2018 foi um ano em que havia sempre alguma coisa a acontecer e/ou a ultrajar a internet e o Mundo. Em janeiro, o Youtube caía em cima de Logan Paul depois de ele ter filmado a “suicide forest” no Japão. Em fevereiro, o mundo rendeu-se a Black Panther (e 2 meses depois render-se-ia a Infinity War). Pouco depois, Trump encontrava-se com Kim Jong-Un e as Coreias acabavam a guerra de 60 anos, enquanto Kanye West reativava o Twitter para revelar novas músicas (e novas polémicas). Comecemos então pela figura do ano: Kanye West.

É fácil de entender o porquê do rapper/produtor de Chicago ser a figura do ano: a GOOD Music (editora que fundou em 2004) dominou o verão, com o fenómeno que os “entendidos” nomearam de “GOOD Summer” (em contraponto com a compilação Cruel Winter de 2012), com 1 dos 6 álbuns mais populares do ano , 5 deles integralmente produzidos por Yeezy. Em maio, Pusha T lança DAYTONAque inclui a capa mais controversa do ano (uma foto da casa de banho de Whitney Houston repleta de drogas e acessórios) e um diss a Drake. Depois de anunciar pelo Twitter, Kanye lança Ye no Wyoming, onde tinha estado enclausurado a trabalhar. Repleto de mistério (a capa do álbum foi acabada a caminho da festa de lançamento e é provável que o álbum tenha sofrido muitas alterações no próprio dia), é seguido pelo provável álbum do ano, Kids See Ghosts, em colaboração com Kid Cudi e Takashi Murakami. Na semana seguinte, tivemos Nasir– o regresso do rapper nova-iorquino Nas à (boa) música. No fim de junho, Keep That Same Energy de Teyana Taylor surpreende, cimentando a posição da cantora de Harlem no R&B mundial (Rose In Harlem é, sem dúvida, uma das músicas do ano). Para terminar a viagem na montanha-russa que é o mundo de Kanye West, Astroworld, o álbum mais popular e esperado do ano, é lançado em agosto, catapultando Travis Scott para a ribalta mundial. A verdade é que Travis sempre fez boa música e que Rodeo (2013) continua a ser dos melhores álbuns de hip-hop desta década, mas hitscomo Sicko ModeStargazinglevaram Houston – e o seu defunto parque de diversões – a todos os cantos do mundo.

Ainda no hip-hop, destaque para outros álbuns que nos deixaram com vontade de ouvir vezes sem conta: Black Panther: The Album, a banda sonora do filme homónimo, curada por Kendrick Lamar (Fevereiro), Bobby Tarantino II, de Logic (Março), Beerbongs and Bentleys, de Post Malone eKOD, de J.Cole (Abril), Testing (o meu álbum favorito de 2018), de A$AP Rocky (Maio). Em junho e julho tivemos álbuns de Jay Rock (Redemption), Beyoncé e JAY-Z (Everything is Love– com direito a lançamento surpresa e a vídeo no Louvre!), Death Grips (Year of the Snitch), Drake (Scorpion, acompanhado pelo beef com Pusha T e pela revelação de Adonis, filho do rapper canadiano) e Denzel Curry (TA1300). A somar a Astroworld, agosto trouxe-nos Swimming de Mac Miller (depois deste álbum ainda foi mais difícil vê-lo partir), Queen de Nicki Minaj, Slime Language de Young Thug e Kamikaze de Eminem (mais um álbum surpresa e mais outro com direito a diss track). No último trimestre fomos abençoados com novos álbuns de BROCKHAMPTON (Iridescence), Anderson.Paak (Oxnard – um ótimo follow-up a Malibu de 2016), J.I.D. (DiCaprio2), Lil Wayne (Tha Carter V) e Earl Sweatshirt (some rap songs). 2018 foi, como podem ver, um ótimo ano para o hip-hop.

A nível de R&B, o destaque vai naturalmente para My Dear Melancholy, de The Weeknd, Isolationde Kali Uchis e o regresso aos álbuns do The Internet, com Hive Mind, outro forte concorrente a álbum do ano. 

No espetro do Pop, 2018 começou da melhor maneira com o novo álbum dos intemporais MGMT – Little Dark Age– seguindo-se 7dos Beach House em maio. No último trimestre tivemos muitas novidades: Troye Sivan com Bloom, Kodaline com Politics of Living, The 1975 com A Brief Inquiry Into Online Relationships e dois projetos de H.E.R. O verdadeiro destaque, no entanto, vai para as estrelas que já nos habituaram a bom Pop: Ariana Grande com Sweetener – que passou por muitos altos e baixos em 2018 (terminou a relação com Mac Miller, ficou noiva de Pete Davidson, o álbum foi um sucesso e terminou o noivado com a estrela do SNL), Lady Gaga (protagonista de mais um remake de A Star is Born) brilha na banda sonora lançada em Outubro e o regresso da lenda Mariah Carey com Caution, com direito a produção de Skrillex, Timbaland e No I.D. e features de Blood Orange, Ty Dolla $ign e do novato Gunna. 

E agora, Janelle Monáe e Rosalía, tão únicas que não as consegui encaixar em nenhum dos estilos anteriores. Dirty Computer El mal querer, sem dúvida, dos melhores discos do ano.

2018 marcou também o regresso aos álbuns dos Fall Out Boy (com Mania Lake Effect Kid), de Jack White (em março, com Boarding House Reach) e dos The Voidz (também em março, com Virtue). Os já veteranos dos palcos portugueses Unknown Mortal Orchestra (Sex & Food) e Father John Misty (God’s Favorite Customer) levaram igualmente o rock mundial a bom porto. No fundo, o rock, apesar do seu declínio, continuou bem representado ao longo do ano, com álbuns das 4 principais bandas atuais: Arctic Monkeys (Tranquility Base Hotel & Casino), Interpol (Marauder), Imagine Dragons (Origins) e Muse (Simulation Theory). 

Uma breve referência à música eletrónica, com novos álbuns (e que álbuns!) de Nils Frahm (All Melody) e Moby (Everything was Beautiful and Nothing Hurt). Também tivemos The Now Now de Gorillaz, um passo na direção certa (comparando ao último álbum, Humanz). Curiosamente, um dos melhores lançamentos por parte de um produtor de música eletrónica não foi sequer focado neste estilo musical: Where’s The Drop?de Deadmau5 mostra-nos uma versão de orquestra de algumas músicas do produtor canadiano, desde clássicos como Strobea novas produções como Monophobia. Destaque também para Getter, produtor de San Diego e ex-Viner, que lançou o tão aguardado Visceral, a peça final na evolução de DJ “underground” para produtor respeitado pelos seus pares.

Não esquecer também que 2018 foi também um ano muito proveitoso para os artistas nacionais: novos projetos de Filipe Sambado (Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo), B Fachada (Viola Braguesa X), David Fonseca (Radio Gemini) e The Legendary Tigerman (Misfit). Atenção também para Bons Sons, festival 100% nacional, que contou com presenças (e nova música) de PAUS, Linda Martini, Selma Uamusse e Dead Combo. O hip-hop também não ficou mal representado, com Bairro da Pontede Stereossauro e Entretenimento? de Carlão. É importante lembrar também Do Avesso, a nova aventura de António Zambujo e Nação Valentede Sérgio Godinho, discos excelentes daqueles que são dois dos maiores músicos portugueses e a surpresa do ano, adoro bolosdo já icónico Conan Osiris. 

Para finalizar, deixo uma nota final àqueles que eu considero as maiores revelações deste ano que tão rapidamente passou e àqueles que vão, com certeza, fazer de 2019 um ano ainda melhor que 2018. Para começar, falemos de Billie Eilish. Sem álbuns em 2018, foi lançando algumas músicas durante o ano, prometendo um projeto no futuro próximo (que pode contar com Lorde e John Mayer!). Também sem álbuns, Childish Gambino, Charli XCX e Lana del Rey, foram dando, no entanto, algumas pistas para futuros lançamentos ao longo de 2019 e mal podemos esperar. A nível das maiores revelações, é impossível não referir uma das maiores estrelas do ano: Cardi B e o colossal debut Invasion Of Privacy. Ainda no hip-hop, destaque para o fenomenal Veteran de JPEGMAFIA, Goodbye and Good RidanceWrld on Drugsde Juice Wrld e Mudboyde Sheck Wes, pupilo de Travis Scott e responsável pelo êxito Mo Bamba. De realçar ainda as contribuições magníficas de Jorja Smith (Lost & Found) – recentemente anunciada no cartaz do Alive – e de Joji, o criador de Filthy Frank e Pink Guy – agora dedicado a música mais séria – com o seu primeiro álbum, BALLADS1. Como derradeiro apontamento, o inesperado fracasso dos Greta Van Fleet, banda rock dada como muitos como os próximos Led Zeppelin e que levaram esse título tão seriamente que, nas palavras de Anthony Fantano, se tornaram numa banda de “covers” de Led Zepelin, só que com músicas originais.

E assim foi 2018. Um ano excecional e especialmente bom no que respeita a música. Muitas músicas, ainda mais memórias. É ouvir, sentir e esperar que 2019 seja ainda melhor.

João Francisco Poças