“As verdadeiras crises”

Tenho um lar mas o meu refúgio são os teus braços

Caminhávamos sobre o lodo de um túnel sombrio, como ratos de esgoto. Disseram-nos que no fim iriamos encontrar um bom refúgio. Preservei a minha máscara de “estamos salvas” na tentativa de dissipar a de assombro da Alexandra, a minha companheira. Eu e ela encimávamos, corajosamente, um grupo de desconhecidos. Chegámos finalmente a um local que reconheci perfeitamente: a piscina onde treinei oito anos e que agora se apresentava completamente abandonada e decrépita. Talvez estivéssemos realmente seguras ali, longe do tiroteio. Dois homens não armados aproximaram-se de nós, dando-nos as boas-vindas. Inesperadamente, perguntaram ao grupo: “Sabem qual foi o prémio Nobel da Química?” Entreolhamo-nos, cansados demais para nos admirarmos. “Apreciem.” Um gás amarelo começou a encher as velhas instalações balneares e só tive tempo de agarrar a mão da Alexandra e correr por uma porta que conhecia. Lá fora, mais homens de metralhadora. Continuamos a correr como pequenos coelhos, pelo meio deles, esperando que fechassem os olhos à ousadia e nos deixassem obstinadamente gastar mais vidas. Escondemo-nos nas casas abandonadas e destruídas das redondezas. Sentia-me um verdadeiro “gato escondido de rabo à mostra”, mas com consciência que o “game over” poderia chegar a qualquer momento.

E chegou. Chegou sob a forma de um acordar sobressaltado mas chilreante de uma europeia em férias escolares. Era apenas mais um pesadelo relacionado com a crise de refugiados que misturava atrocidades repetidas da História da Humanidade (como as câmaras de gás), com o eterno financiamento da ciência pelos senhores da guerra e claro, com o sentimento (muito longe do real) do que é correr perigo e perder os pilares de uma vida banal.

Digo muito longe do real porque o real é bem melhor caracterizado por fotografias como a de Warren Richardson (ilustração deste artigo), que venceu o World Press Photo 2015 (leiam a história retirada do Público).

refugiados

Legenda: “(…) A falta de luz é testemunha da precariedade da situação – dois refugiados na fronteira entre a Sérvia e a Hungria fazem passar um bebé pelo buraco na vedação de arame farpado. O fotógrafo australiano (…), acompanhava havia horas um grupo de 200 pessoas que tentavam atravessar a fronteira e que tinham passado toda a noite a fugir da polícia. Não podia usar flash, porque se o fizesse denunciaria os refugiados. Eram três da manhã e só a lua lhes permitia ver onde punham os pés. “Eles mandaram as mulheres e as crianças primeiro, depois os homens com filhos e os mais velhos. Devo ter estado com este grupo umas cinco horas. Passámos a noite toda a brincar ao gato e ao rato com a polícia”, disse Richardson.” In Público (Fev. 2016).

Foi, porém, a terceira vez que os nossos irmãos do Oriente me assaltaram em sonhos, com ténues demonstrações do que é ter medo. Como tal, aceitei este chamamento bíblico, em todo o meu agnosticismo, e decidi pesquisar para além do que via na televisão e jornais.

Nós, estudantes, por vezes não temos tempo para compreender tiroteios para além do bombardeamento de exames. Por isso, vou tentar dar a perceber em poucos minutos o que dura há anos. Partilho o que sei (ou penso saber) acerca deste tema, esperando assim fomentar a discussão dos vários pontos de vista e refutação dos meus.

  1. Atualmente a Síria é a maior fonte de refugiados do mundo e apesar de só em 2015 se começar a ouvir a palavra “refugiados” na Europa (sendo esta até a “palavra do ano”), o problema começou há pelo menos 4 anos, em 2011. Em 2011 deu-se a chamada “Primavera árabe” nos países do médio Oriente, isto é, muitos regimes ditatoriais foram derrubados. Uma exceção foi o governo Sírio sob o domínio da família Assad desde 1960. Este governo iniciou uma guerra civil contra o próprio povo negando-se a abandonar o poder. Seguiram-se conflitos políticos com os países fronteiriços. O clima de guerra agitou também divergências religiosas lideradas por entidades extremistas (e não pelos cidadãos!). A somar a isto, o grupo terrorista ISIS, anteriormente apoiado pela Arábia Saudita por motivos “religiosos”, altera o seu foco de conquista (norte do Iraque), para se concentrar na instável Síria. Atualmente alastra-se de forma tão atroz que a Arábia retirou o apoio anteriormente depositado.
  1. Desde o início da guerra, 1/3 da população Síria foi deportada e 4.3 milhões fugiram – os refugiados. Destes, 95% estão nos países fronteiriços (1,2 milhões no Líbano, 650 mil na Jordânia, 250 mil no Iraque, 1,9 milhões na Turquia e 130 mil no Egito). Por isso, é errado dizer-se que os refugiados se “lembraram” de vir para a Europa para nos roubar algo. A Europa está a receber 5% do total de refugiados: cada país europeu teria de receber um número ridiculamente inferior de pessoas relativamente aos países referidos, tendo porém um PIB ridiculamente superior. É certo que países como a Arábia Saudita, Kuwait, Qatar, entre outros não estão a aceitar refugiados (legalmente), mas a Europa não deve usar isso como desculpa.
  1. Não… Receber este número de pessoas não nos tornaria muçulmanos e alvo de terrorismo. Se recebêssemos os 4 milhões de refugiados e todos fossem muçulmanos, a percentagem de muçulmanos na Europa aumentaria de 4 para 5%. Ou seja, os ataques terroristas à Europa devem-se a conflitos internos e não externos, como aliás é referido por António Guterres num comunicado acerca do tema.
  1. É defendido por muitos que a vinda dos refugiados tende a favorecer o país acolhedor e não a prejudicar. Muitos deles têm estudos e podem fomentar a economia do país. Por outro lado, a lei de asilo indica que os refugiados que não tiverem forma de se sustentar devem receber apoios para alimentação e alojamento no valor máximo de 419 euros.

Já agora, refugiado é “quem requer asilo” e “obter estatuto de refugiado é um direito fundamental consagrado pela legislação internacional, que os países signatários da Convenção de Genebra (1951) têm o dever de cumprir. Os 28 países da União Europeia estão entre os 147 que a assinaram.”.

Posto isto, percebe-se que vários países assistem a todas estas atrocidades sem cumprir os seus deveres morais (e legais). Gasta-se muito em fronteiras e “segurança” mas pouco em solidariedade e organização. Pelo que li, parece-me que países fulcrais nesta crise não querem verdadeiramente resolver o problema em si, sem tirar algum proveito disso. Alianças entre países, afrontas, petróleo, mercado de armas… motivos esses que nem eu sonho.

Os governos apelam à segurança, mas é medo que despoletam na população. E o medo imobiliza, desumaniza. É a nossa segurança mais valiosa que a dos outros? Ou é suposto ficarmos mesmo inertes para que outros continuem a brincar ao monopólio das potências?

Segundo Guterres, o apoio dado pela União Europeia não chega a 50% daquele que é orçamentado pelas organizações de ajuda humanitária. Isto significa que o maior apoio desta crise têm sido feito por pessoas como eu e tu com o pouco (mas imenso) poder que têm.

Como fiquei inspirada pelos grandes exemplos de solidariedade provenientes “do povo”, penso que mais ajuda e mais ideias irão surgir se discutirmos este tema.

Termino assim, deixando as fontes de informação em que me baseei e as formas de ajudar:

 

Inês Mendonça