Entrevista a Pedro Lopes

De uma colaboração entre a Corino e o NEB (Núcleo de Estudantes de Bioengenharia) surgiu o +BIO, uma rubrica que vos trará mais do que Bioengenharia.         

Tentando não nos focar no curso mas sim utilizando-o como ponto de partida para novas descobertas, o +BIO consistirá em entrevistas tanto a personalidades relevantes para a área como a alunos com projetos ou experiências interessantes.

Fiquem atentos!

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Este mês entrevistamos o Pedro Lopes, estudante do 5º ano do Mestrado Integrado em Bioengenharia. Perto do Grande auditório da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, numa conversa informal, tentámos perceber melhor qual o projeto desenvolvido por ele, em Erasmus, e como foi estudar fora de Portugal. Aqui fica o registo da sua experiência que espera vir a inspirar outros estudantes e esclarecer ainda algumas dúvidas relativas à experiência Erasmus.

NEB/Corino – O que te levou a fazer Erasmus?

Pedro Lopes – Desde que entrei no curso que queria fazer Erasmus… É uma oportunidade para aprender coisas novas e ver na prática o que passas tantos anos a estudar.

Uma coisa que eu senti quando cheguei cá [Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto] foi que parecia que estava a aprender muita coisa, de muitas áreas, mas que não sabia nada em específico. Pensava que não conseguiria ter impacto em lado nenhum. No entanto, ao longo dos anos fui percebendo que esse não é o caso e que conseguia estar ao mesmo nível de outros estudantes que tinham uma formação diferente da minha, talvez mais específica.

NEB/C. – Como foi estar num país estrangeiro a estudar?

PL – Estive no Reino Unido, na Universidade de Sheffield num laboratório chamado CISTIB (Center for Computional Imaging & Simulation Technologies in Biomedicine) que é o laboratório central do projeto em que participei. Aprendi muito, não só a desenrascar-me mas em muitos outros aspetos. Tive a responsabilidade de trabalhar num projeto a sério e de o fazer andar para a frente. Participei no desenho do protocolo, das ferramentas necessárias para realizar o estudo e tratei da parte burocrática e ética para este (o protocolo) fosse aceite. Ter este tipo de experiência é algo que tu levas para a frente e que te ajuda sempre a evoluir. Por exemplo, aprendi como este tipo de estudos e clinical trials funcionam apesar de, para meu pesar, ter vindo embora pouco antes dos testes começarem.

NEB/C. – Tinhas já uma ideia predefinida da área em que gostarias de trabalhar durante  este período ou isso não foi prioritário?  Em que consistia o teu projeto?

PL – A área em que trabalhei não era exatamente o que na altura seria a minha principal “paixão”. O que mais gosto é eletrónica e programação e embora tenha trabalhado também nessas áreas durante o meu período lá (criando as ferramentas, tratando dos sensores, etc..), o que fui fazer acabou por ser mais virado para a biomecânica. Essa área já despertava o meu interesse (e o tema que se estava a estudar), mas durante o meu tempo lá que acabei por gostar ainda mais e acabar por estar agora a fazer a minha tese nessa área. O trabalho que realizei debruça-se sobre o modo como os pacientes de Alzheimer andam. Existem estudos que relatam que estes pacientes têm alterações na maneira como andam, mesmo numa fase precoce da doença. Assim, pretendia-se analisar o modo como doentes com Alzheimer andam, comparando-os com indivíduos saudáveis, e ainda os que se encontram numa fase intermédia, aquela que é de maior interesse estudar. Através destes estudos, o objetivo seria encontrar padrões e características na passada que se demonstrassem característicos da doença e da sua fase. Se queremos interferir na doença de Alzheimer e abrandar o seu avanço temos de tentar atuar o mais cedo possível, e é com estudos como estes que poderemos realizar um diagnóstico cada vez mais precoce de maneira a melhorar a vida destas pessoas.

 

NEB/C. – Sabemos que o projeto em que participaste se insere num de maiores dimensões, o VPH-DARE@IT (Virtual Physiological Human: DementiA Research Enabled by IT)- qual o objetivo deste?

PL – O VPH-DARE@IT desenvolve-se com base no estudo da demência e de formas de melhorar a clínica e o método de diagnóstico nesta área, contando com o apoio de especialistas tanto da área clínica, como tecnológica ou mesmo da indústria. O meu estudo esteve mais relacionado com o dia a dia da pessoa, mas o projeto em si é muito mais extenso. Todo o projeto é realizado usando IT (Information Tecnologies), através da recolha de dados do dia-a-dia e imagens médicas, conjugadas com análises estatísticas e métodos de processamento de informação de modo a que, utilizando tudo o que a tecnologia nos permite possamos melhorar esta área. Usando todos estes dados e técnicas procuramos depois os pontos comuns nos vários pacientes diagnosticados com demência.

NEB/C. – O que é a Kinematix e de que forma este se inseriu no estudo que desenvolveste em Erasmus?

PL – A Kinematix é uma start up que começou no INESC TEC  (Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência) e foca-se no estudo dos movimentos do corpo humano, desenvolvendo produtos com base na biomecânica. Começaram a estudar a passada e o caminhar e neste momento estão a desenvolver um novo produto para atletas. Eu usei o WALKinSENSE, que consiste num pequeno sensor que se coloca no sapato e numa palmilha especializada para monitorizar o andamento da pessoa. A Kinematix é um dos parceiros deste projeto em que me inseri e no qual ingressei devido a um convite do professor Miguel Velhote.

NEB/C. – Na tua opinião, que impactos poderão advir deste projeto? Que mudanças gostarias de ver nos métodos de diagnóstico para a demência?

PL – O impacto deste projeto pode ser visto de diversos modos, mas espera-se que se reflita em aplicações clínicas. Tenta-se transferir todo o conhecimento obtido durante este projeto para a prática, tentando influenciar a forma como estes diagnósticos poderão ser feitos no futuro. O que gostaria era que esses diagnósticos pudessem ser feitos cada vez mais cedo, e feitos com certezas, visto que apesar de existirem sintomas tipo na doença existem casos que fogem à regra e o importante seria consegui-los apanhar. Este projeto poderá ser um passo nesse sentido.

 

NEB/C. – No geral, como foi estar no Centro de Congressos de Lisboa a apresentares o teu projeto?

PL – Realmente percebes que o que fizeste tem valor… Estares a dedicar-te tanto tempo a um trabalho, um
projeto, pode ser chato por vezes, mas a questão é que chegas lá e encontras pessoas da área que estão a fazer coisas parecidas e genuinamente interessadas naquilo que estás a fazer, criam-se sinergias
. Ouve-se muito um “eu provavelmente podia ajudar-vos” ou um “vocês podiam ajudar-me” nisto ou naquilo. É nestas conferências que acabas por fazer networking, por conhecer as pessoas que já estão a fazer o que também queres fazer, o que é muito importante porque conheces pessoas que já passaram pelos teus problemas e transmitem o seu know-how. Conheces sempre alguém com quem possas trabalhar e transmitem-se ideias, conhecimentos. Fazes todos esses contactos que um dia mais tarde podes precisar… Eu passei lá três dias, o projeto tinha um stand na conferência e as pessoas interessadas vinham falar connosco e nós explicávamos o projeto. Além disto o ICT (Innovate Connect Transform) é a maior conferência a nível europeu de IT e ainda por cima sendo este ano em Lisboa foi uma grande oportunidade. Notas também que a área da saúde está em crescimento, vês o que está a ser feito cá (em Portugal) e lá fora e sabes quais são as mais valias e, quem sabe, áreas que te possam interessar no futuro. É importante conhecer e dares-te a conhecer e aconselho a qualquer pessoa que tiver oportunidade de ir a qualquer conferência a não hesitar, mesmo que a matéria em causa não seja assim tão acessível à compreensão.

No fim da conversa perguntamos ainda ao Pedro o que foi mais importante ou inesquecível nesta experiência e quais as suas perspetivas futuras. Diminuindo o tom sério face a esta pergunta e entre risos, piadas e histórias da faculdade, percebemos que o mais importante no curso e numa carreira futura será mesmo o gosto que desenvolvemos por algum assunto ou tema e a dedicação que lhe damos. “Escolhe um problema que não te deixe nunca cansado e que não te faça perder o entusiasmo, mesmo nos momentos mais difíceis (…)”.

Maria Francisca Pessanha – NEB